segunda-feira, 24 de maio de 2010

ÂNCORA DE EMOÇÕES (RESENHA)


MATOS, Maria Izilda Santos de. Âncora de Emoções: corpos, subjetividades e sensibilidades,Bauru, EDUSC, 2005, 182 p.
A Autora
Maria Izilda Santos de Matos é professora titular da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, colaboradora da Universidade Estadual do Ceará e professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Sua formação é na área de História. Graduou – se em 1978 pela Universidade de São Paulo, onde doutorou – se em 1991, dando prosseguimento aos seus estudos com um Pós Doutorado na Université Lumiere Lyon 2/França, em 1997. Sua especialização é em História do Brasil e os temas que investiga são história, música, gênero, cidades e história das mulheres. Tem vários trabalhos publicados sendo sua principal obra Trama e Poder, pelo qual recebeu o prêmio SESI – CNI de Teses Universitárias, em 1994. Dentre seus trabalhos está o livro Âncora de Emoções, corpos, subjetividades e sensibilidades que nos dispomos a resenhar a partir de agora.
O livro
MATOS introduz o livro falando sobre as possibilidades abertas aos pesquisadores com o descobrimento do político dentro do cotidiano, a partir do abandono de uma visão histórica positivista baseada em fatos e personagens da elite.
Essa visão reformulada de História dá voz a novos sujeitos históricos que foram silenciados por uma “História dos vitoriosos”. Dentro desse contexto, como novos sujeitos, estão os integrantes das classes populares, as mulheres, povos de diversas etnias, trabalhadores do campo e operários da indústria, até então excluídos das narrativas históricas que, ao ganharem voz, trazem à luz temporalidades diversas, experiências históricas diferenciadas e possibilitam ao historiador reconstituir o passado de maneira plural.
A seguir o texto é dividido em duas partes, sendo a primeira uma reflexão sobre como o discurso médico, juntamente com outros discursos, forja os conceitos de masculino e feminino utilizando como base as condições fisiológicas de homens e mulheres para disciplinar corpos e conformá – los aos interesses de uma sociedade em emersão. A divisão dos papéis sociais reproduz a divisão das tarefas nas fábricas, enquanto a mulher se ocupa dos serviços domésticos e consequentemente de uma formação física e moral dos filhos, os homens trabalham fora de casa para garantir o sustento material da família. Essas funções familiares, consequentemente se estendem às funções sociais de cada sexo.
Na segunda parte MATOS utiliza as letras de música das décadas de 40 e 50, mais especificamente o samba – canção, para mostrar como os mesmos ideais veiculados pelo discurso médico se enraízam na sociedade e aparecem na produção artística musical, porém como a expressão desses sentimentos são multifacetados tanto para homens como para mulheres. Assim a autora justifica a importância do uso da música como documento histórico, que além do grande potencial em revelar as paixões e sensibilidades correntes em um meio social é um canal de troca entre artistas e público. O trabalho demonstra, a partir do estudo das letras dos sambas canções, como essas peças artísticas são ao mesmo tempo a expressão e o veículo de idéias que povoam o imaginário de determinados grupos sociais através de olhares individuais, ou seja, como os sentimentos de cada indivíduo são também frutos de uma construção social e não apenas algo que brota naturalmente em cada ser humano. MATOS demonstra como a música auxilia na construção de realidades ao mesmo tempo que é produto de uma realidade construída, legitimando mais uma vez o seu uso como documento de grande valia na investigação das ações dos homens imersos em um determinado tempo histórico.
Discurso Médico, Eugenia e Sexualidade.
No fim do século XIX e início do século XX o Brasil se vê frente a profundas mudanças sociais. A proclamação da República e o fim da escravidão dão o pontapé inicial à formação de polos urbanos/ industrializados que têm como sustentáculo a família chamada “nuclear” (mãe, pai e filhos).
É a partir do controle do núcleo familiar e de sua disciplinarização, que o Estado tentará dividir as tarefas sociais a partir de uma diferenciação fisiológica entre homens e mulheres, baseando – se no discurso médico higienista e eugênico, entre outros.
À medicina caberá a disciplinarização e controle dos corpos do homem e da mulher, definindo o conceito e os padrões de comportamentos socialmente aceitos e desejáveis aos sujeitos dos sexos masculino e feminino. Ignorando quaisquer características individuais ou coletivas fica a mulher obrigada a dedicar – se às tarefas domésticas e o homem a suprir as necessidades materiais do lar.
Para forjar esses comportamentos padrões a medicina, juntamente com outras áreas, povoou o imaginário popular, de idéias que opunham o masculino ao feminino onde a mulher era frágil não só física como moralmente, naturalmente maternal, dócil, acolhedora, perfeita para atuar no papel de mãe - esposa e o homem era o sexo forte, provedor, agressivo, dono do poder, aquele que deveria incumbir – se do provimento material do lar através da sua atuação em âmbito público.
Assim a mulher ideal era a esposa – mãe, agente familiar, a quem cabia o crescimento sadio das crianças, a manutenção da felicidade do lar, o desejo do homem de ficar em casa e não ir ao bar, ou seja, recaía sobre a mulher a manutenção moral da sociedade enquanto o homem, com seu trabalho nas fábricas, campo etc., garantia a sustentabilidade econômica e política. Às mulheres também era imputada a culpa quando um lar se desfazia. Era ela considerada incapaz de manter seu marido preso ao lar após o dia de trabalho, incompetente na defesa da vida de sua criança por falta de alimentação e condições de higiene adequadas etc.
O discurso médico, legitimado pela ciência, forjou idéias como a do aleitamento materno para fortalecer os laços entre mães e filhos, descredenciou as amas de leite, definiu algumas doenças como próprias da mulher, geralmente ligadas ao útero e a sua conformação fisiológica que era “frágil” como sua conformação moral. Nessa época é criada a maternologia, ou seja, a profissionalização da maternidade, calcada em idéias higienistas e voltadas principalmente às camadas populares.
“Desta forma, a maternidade deixava de ser uma experiência exclusivamente feminina, transmitida entre mulheres, para transformar – se em um saber que emerge de um discurso profissional da medicina – na verdade, um discurso masculino sobre as mulheres.” (MATOS, 2005, p. 51)
Além disso , a maternidade passa de experiência empírica a experiência científica, baseada em um discurso da ciência sobre o conhecimento popular, discurso esse valorizado com surgimento da sociedade burguesa, forjada a partir de uma mentalidade progressista/ cientificista que visava o desenvolvimento do comércio e dos meios que viabilizassem cada vez mais o seu desenvolvimento, e que teve como consequência disso o surgimento da própria indústria, mola propulsora do adensamento das cidades e do modo urbano de vida, visto à época como o maior exponencial da modernidade.
Para fechar ainda mais o círculo de controle sobre a família, duas outras questões foram submetidas aos pareceres médicos: a eugenia e a sexualidade, sendo que a primeira fugiu ao âmbito da medicina e passou a ter seus ideais de “apuração das raças” defendidos também por juristas, políticos e intelectuais.
A eugenia, junto com a maternologia atribuíam à mulher a responsabilidade dos cuidados maternos para a criação de filhos fortes moral e fisicamente com a finalidade da construção de uma nação racialmente fortalecida. Os eugenistas viam no casamento o símbolo das nações civilizadas. Para se sair da barbárie portanto, era necessário garantir a saúde dos cônjuges através dos exames pré nupciais, além da prevenção de doenças sexualmente transmissíveis, do alcoolismo e drogas em geral. Daí a necessidade do controle da sexualidade tanto antes como depois do casamento. O ato sexual deveria ser reservado aos casados para garantir a saúde de ambos, uma vez que as doenças como a sífilis eram sexualmente transmissíveis.
Segundo os médicos, o instinto sexual estava para o homem assim como o instinto maternal estava para as mulheres, para coibir os “excessos” masculinos foram criadas uma série de regras para a prática do ato sexual que deveria restringir – se à procriação era desejável que la mulher copulasse até a menopausa e o homem até os 50 anos.
Todas essas regras e restrições eram validadas pela classe médica e visavam um controle social baseado nas idéias da eugenia. Esse controle era exercido para a formação de cidadãos e cidadãs fisiologicamente mais fortes e como a moral estava também ligada à conformação física, consequentemente, haveria também um progresso moral da sociedade brasileira.
Nesse período, o trabalho era visto como o sustentáculo dos cidadãos e da sociedade e tudo aquilo que dele se desviasse era mal visto, juntando – se a isso a mentalidade higienista, o combate ao alcoolismo foi intenso nessa época, valendo – se de campanhas preventivas até a internação dos alcoolistas como meio de tratamento e isolamento da sociedade.
As pesquisas sobre o alcoolismo apontavam homens negros trabalhadores como as maiores vítimas do álcool, assim as campanhas passam a ser feitas visando essa população. O perfil desejável de homem era daquele que sustém materialmente sua casa e sua família. A bebida alcoólica juntamente com o jogo eram fatores de degeneração dessas qualidades à medida que comprometiam a saúde do usuário, afastavam – o do trabalho e tiravam o conforto dos seus dependentes.
Para construir uma sociedade moderna, segundo esse pensamento, era necessário que empregados e patrões se unissem pelos laços do trabalho, levando uma vida regrada tanto dentro como fora do ambiente laboral.
Assim, o discurso médico ajudou a produzir uma realidade, a partir da construção de um imaginário onde à mulher cabia apenas o papel de mãe - esposa e ao homem o de pai – provedor. Qualquer outro comportamento tanto de um como de outro era considerado desviante e passível de punição ou isolamento social.
Daí construíram – se imagens marginais para agentes sociais que não se enquadravam nesses padrões. As mulheres trabalhadoras eram associadas à prostituição, infidelidade conjugal e moral fraca. As mulheres solteiras, por não terem exercido seu papel maternal, podiam ser consideradas doentes e passíveis de desequilíbrios emocionais. Os homens por sua vez, não deixavam de carregar seus rótulos. Os solteiros eram associados à devassidão, ao alcoolismo, à boemia e à vadiagem.
Segundo a autora portanto, o evolucionismo e o positivismo constituíram – se em bases teóricas para uma sociedade que pretendia – se hierarquizada, tendo a mulher como subalterna do homem, para isso construiu um discurso exaltando as diferenças de gêneros e minimizando as igualdades, desconsiderou as múltiplas possibilidades do feminino e do masculino, agindo para a construção de seres ideais, padronizados a fim de melhor controlá – los. Ou seja, MATOS aponta para as relações de poder que estão subjacentes a essa constituição rígida do que é masculino e do que é feminino não se contentando, como qualquer bom historiador, em relatar fatos mas levantando questionamentos sobre uma realidade posta, buscando descobrir as possíveis respostas que expliquem os porquês das ações humanas em determinado contexto.
História e Música
Na segunda parte do texto MATOS utiliza as letras de músicas dos anos 40 e 50 para questionar o que a sociedade da época tentou expor como universal, os sentimentos.
A autora parte do pressuposto que a subjetivação dos sentimentos se dá de múltiplas maneiras para homens e mulheres, utilizando as canções como documento de sua investigação por serem produtos e produtoras de cultura. Nelas os compositores expressam os ideais circulantes na sociedade, que os acolhe ou os rejeita transformando esse produto cultural em um meio de comunicação entre emissor e receptor.
Os sentimentos são apresentados como construções sociais, frutos da conceituação fechada e moldada por regras externas aos sujeitos, a partir dos interesses e das relações de poder subjacentes à conceituação do masculino e do feminino utilizados como meio do controle social, base sustentadora de um sistema sócio – econômico desigual que imputa aos indivíduos a culpa por seus fracassos pessoais e aponta como causa principal desses fracassos o desvio dos próprios indivíduos dos padrões de conduta estabelecidos como aceitáveis, sem fazer qualquer crítica à maneira como essa sociedade opera.
Assim, a autora pretende “ (...) uma reflexão em torno da subjetivação dos sentimentos amor/ dor e sua diferenciação/ especificidade no masculino e no feminino” (MATOS, 2005, p. 91)
MATOS parte do princípio que esse processo é diferenciado e múltiplo para homens e mulheres.
A autora utilizará as obras de três compositores e uma compositora para demonstrar esse processo. São eles: Antonio Maria, Dolores Duran, Lupicínio Rodrigues e Vicente Celestino.
Para dar início a essa segunda parte, recorre ao contexto histórico de Copacabana.
Naqueles anos, o bairro de Copacabana era um dos redutos boêmios do Rio de Janeiro, então capital federal. Diferenciava – se de outros lugares reconhecidos como locus da boemia pelos seus frequentadores (intelectuais, turistas ricos, jornalistas, músicos etc.) e pela atmosfera das casas noturnas ali instaladas.
Havia um desejo generalizado de ser moderno difundido pelos meios de comunicação de massa que acabou influenciando os padrões culturais da época sem no entanto homogeneizá – los.
Copacabana passa a ser um centro de tensão entre o moderno e o arcaico, entre padrões culturais diferenciados, com arquiteturas que se confrontavam. Enquanto em alguns pontos os areais ainda dominavam a paisagem, em outros os prédios de pequenos apartamentos iam surgindo e ajudando no desenrolar de um processo cada vez mais próximo das experiências individuais e solitárias, de gentes que frequentavam as boates esfumaçadas para ouvir músicas com letras que versavam sobre a inevitabilidade da ligação entre amor, dor e solidão. O consumo do tabaco e do álcool eram permitidos assim como se conseguia um grau de anonimato capaz de encobrir relacionamentos fora dos padrões tradicionais. Por outro lado, essa nova perspectiva de vida coexistia com os padrões antigos de moralidade.
Nesse sentido o contexto era o mesmo tanto para Lupicínio, como para Dolores, Antônio Maria e Vicente Celestino porém a maneira como cada um expressará em suas composições as paisagens, os comportamentos masculinos e femininos e a maneira como encaram o relacionamento amoroso é bastante diferenciado. Embora os quatro falem de amores mal sucedidos, de solidão, de abandono, cada um imprimirá sua própria marca às composições musicais que produzem.
Em Antônio Maria podemos notar os perfis de homens abandonados que vêm nas mulheres seres idealizados, quase sempre indiferentes aos sentimentos que produziram nos homens ao abandoná – los. Também aparece a figura do boêmio que optou por “viver a vida”, pulando de amor em amor e chegou à velhice sem alguém para lhe amparar afetivamente, fica claro o sentimento de tristeza pela falta de alguém.
Lupicínio Rodrigues retrata o homem como um títere da mulher astuta e ingrata, sempre abandonado por razões que não são as afetivas. As mulheres são ingratas e não reconhecem o valor do sentimento que o homem nutre por elas. Do quanto se desgastam para terem conforto. Sempre querem mais, sempre cobram do homem o que lhe é imputado pela sociedade; conforto material.
As canções de Dolores Duran apresentam uma diferença das canções de Lupicínio e Antônio Maria. Mulher e homem não são claramente identificados nas letras, embora o sujeito busque um companheiro ou companheira como forma de acabar com a solidão (como em Antônio Maria), em algumas letras a compositora demonstra que a solidão também pode estar em um relacionamento ainda existente. Apesar disso o sujeito da ação na música não toma iniciativas nem para iniciar e nem para dar fim à relação; ele apenas pede ao companheiro (a) que o faça e espera sua resolução. (Cf. MATOS, 2005)
Em Antônio Maria, Lupicínio Rodrigues e Vicente Celestino é clara a identificação da mulher como praticante do abandono seja por dinheiro, por falta de amor ou qualquer outro motivo. Celestino inclusive aponta a mulher como a causa de suas desgraças, afinal é por causa de sua partida que ele torna – se um hébrio.
A mulher aparece como alguém que não sabe reconhecer o bem que o homem lhe faz e nem o amor que lhe dedica. É um ser astuto, insensível e maquiavélico, quase como a imagem bíblica de Eva, que convence Adão a comer a maçã, ato que os leva à expulsão do paraíso, justificando sua submissão ao homem, ser racional, dotado de poderes para domar alguém tão volúvel e incapaz de pensar logicamente.
Considerações Finais
A leitura de Âncora de Emoções nos faz pensar sobre como o corpo é utilizado ao longo da história para carregar, expressar e justificar as marcas impostas por realidades construídas que visam atender aos interesses daqueles que detém o poder.
No caso da mulher e do homem, é a partir de suas características físicas que se justificam todos os discursos que pretendem fazer das primeiras as educadoras morais da sociedade, aquelas com as quais as crianças devem aprender a desempenhar seus papéis na idade adulta, e dos segundos o braço sustentador da sociedade burguesa (quando cito a sociedade burguesa, falo de uma sociedade baseada na lógica comercial.).
Contrapondo a lógica que se estabeleceu nos anos iniciais do século XX e os pensamentos veiculados pelos sambas canções podemos estabelecer comparações e perceber como, mesmo com mudanças urbanísticas nas grandes cidades, que produziram mudanças culturais e comportamentais, a construção simbólica do masculino e do feminino, salvo pequenas alterações continuaram muito semelhantes no que tange à submissão da mulher pelo homem.
Isso demonstra que os sentimentos expressos pelos letristas é fruto não de uma condição natural mas da apreensão sensível da realidade que cada um é capaz de fazer como homem e mulher integrante de um momento histórico, ou seja, o que sentimos se expressa a partir de uma fusão do pessoal com as idéias e pensamentos veiculados em um determinado contexto sócio – histórico.
Âncora de Emoções traz à luz uma questão inevitável mesmo para uma mulher. Ao longo do texto a autora demonstra como os interesses na construção de uma sociedade alicerçada em determinados interesses econômicos, sociais e políticos produz, a partir de relações de poder, conceitos de masculinidade e feminilidade sendo assim nos questionamos, sem deixar de reconhecer as conquistas de grupos considerados “minorias”, a quais interesses podem estar servindo a inclusão dessas minorias na sociedade atual? Temos condições de identificá – los e não nos deixarmos levar por eles?
Bibliografia
MATOS, Maria Izilda Santos de. Âncora de Emoções: corpos, subjetividades e sensibilidades. Bauru, SP, EDUSC, 2005.

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