segunda-feira, 29 de abril de 2019

Operação Condor


Marcelo Godoy
São Paulo
28/04/2019 13h30

Documentos da Agência Central de Inteligência Americana (CIA) mostram que o Brasil quis liderar a Operação Condor e só não conseguiu porque enfrentou resistência dos outros países membros - Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia. Os serviços de segurança brasileiros resolveram, então, manter-se "na periferia" da organização criada nos anos 1970 para capturar e assassinar opositores políticos exilados.
Os papéis reproduzem até o acordo que formalizou, em 1976, a repressão conjunta na América do Sul. A CIA sabia ainda, "por uma fonte confiável brasileira", de "um acordo entre o Brasil e a Argentina para caçar e eliminar terroristas que tentassem fugir da Argentina para o Brasil". O trato teria sido feito após o golpe de 24 de março de 1976, que pôs no poder, no país vizinho, a junta militar liderada pelo general Jorge Rafael Videla.
O alcance da participação brasileira na Operação Condor sempre foi motivo de polêmica. Fontes militares afirmam que esse papel era de eventual troca de informações e treinamento, a fim de combater grupos subversivos e opositores políticos que agiam nos países da América do Sul. Eventualmente, admitem ter apoiado militares de países vizinhos em operações no País. "Esses papéis são muito importantes até porque a política do governo brasileiro (Ernesto Geisel) de então não era tão agressiva quanto às da Argentina e do Chile. A ação do Brasil, porém, nessa área internacional é menos conhecida, pois aqui os arquivos militares nunca foram abertos", disse o historiador Daniel Aarão Reis,... - Veja mais em https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2019/04/28/cia-diz-que-brasil-tentou-liderar-operacao-condor.htm?fbclid=IwAR3ZZ5UB2AUfaSVt8q0ieFqvtx3jbfqFeDmCauS3STFViByPEcJusgE8bTA&cmpid=copiaecola

Negacionismo Histórico


Renata Cafardo
São Paulo
28/04/2019 09h21

Não houve ditadura no Brasil, o Holocausto não aconteceu, os negros não foram escravizados. O chamado negacionismo histórico ganhou força nos últimos meses, impulsionado pelas redes sociais e por declarações de políticos. O tema, que era pouco estudado, agora preocupa especialistas pelo risco iminente de chegar às escolas.
"Os livros didáticos podem ser diferentes, mas há um limite que não pode ser cruzado. Não pode haver negação do conhecimento", diz o professor titular de História do Brasil Independente da Universidade de São Paulo (USP), Marcos Napolitano. "A pessoa tem uma posição política diante do nazismo, do comunismo, isso é do cidadão, não cabe ao historiador dizer. O que não pode é construir essa posição às custas da verdade histórica."
Ele e a colega Mary Junqueira vão coordenar um debate sobre o assunto na USP entre 7 e 9 de maio. Um dos objetivos é incluir o tema na formação dos novos professores de história, que precisam aprender a se munir de evidências diante das negações. Além disso, Napolitano acredita que uma forma de combater o negacionismo é os historiadores se comunicarem mais com a sociedade. "A gente não é formado para fazer um bom programa de YouTube, um texto rápido e eficaz, e sim para escrever textos longos, complicados e chatos."
O negacionismo histórico já existia ou surgiu agora?
É um termo que já existe há algum tempo e se refere à historiografia do Holocausto. Os negacionistas são aqueles que negam o Holocausto como uma política sistemática de extermínio dos judeus. Na campanha presidencial, surgiram negacionismos mais ligados à história do Brasil: não houve genocídio indígena, os portugueses nunca estiveram na África para fazer tráfico de escravos, não houve ditadura, não houve tortura. É a negação de um evento em que há evidências fortes, testemunhais, materiais, documentais. Eles dizem que não foi bem assim, não foi o objetivo da política, foi um acidente. Esse tipo de postura não tem respeitabilidade no meio historiográfico brasileiro ou internacional. Mas é um fato social.
E por que ele está surgindo hoje no Brasil?
Há um segmento ideológico da sociedade que reclama uma outra história do País, que acha que a historiografia do Brasil nos últimos anos deu ênfase à chamada vítima da história, as classes populares. A extrema direita não se reconhece na produção.
Mas essa crítica é verdadeira?
Não. Isso foi uma tendência dos anos 80, mas já nos anos 90 estava bastante equilibrado. É um visão preconceituosa e errônea. Aquela ideia que aparece nas redes sociais, de que toda a historiografia é de esquerda. Hoje se estuda muito as elites, o conceito de Estado, o autoritarismo, a democracia. A historiografia brasileira tem um leque amplo, com liberais, conservadores, historiadores de esquerda que não são marxistas. Agora, todo historiador sério segue regras. Não pode achar que não existiu porque ele não gosta daquilo ou a ideologia com a qual ele se identifica não aprova.
É possível revisar a história com novas pesquisas?
Sim, é o revisionismo clássico, um processo interessante e feito com todo o respeito às regras metodológicas da área. Quando aparece uma nova fonte, uma nova demanda da sociedade, os historiadores revisam o passado. Outra coisa é o revisionismo ideológico, quando parte de um ponto, de uma polêmica ideológica com relação ao passado, e a partir disso vai buscar a revisão.
Houve revisionismo com relação à ditadura o Brasil?
Sim, e não necessariamente feito por pessoas de direita. Historiadores progressistas revisaram temas polêmicos que a própria memória de esquerda defendia, como a participação da sociedade no golpe. A memória da esquerda falava que o golpe tinha sido feito por meia dúzia de militares, alguns políticos e apoio americano. E a sociedade tinha sido vítima. Isso não corresponde à realidade histórica e, nos últimos anos, esse tema apareceu.
O negacionismo pode levar ao revisionismo?
Esse é o ponto. Muitas vezes o negacionismo puro e simples pode alimentar o revisionismo ideológico, o que pode comprometer o conhecimento.
Ele pode chegar às escolas?
Já está chegando, professores do ensino básico já ouviram de alunos que esse negócio de ditadura não existiu, que é uma invenção da esquerda. Um dos objetivos do nosso evento é discutir como os alunos de História, os pós-graduandos e os professores devem lidar com isso. Como esse tema deve ser parte formativa daqui para a frente para os professores.
Mas o que o senhor diria a um aluno seu, que será professor de História?
O professor tem de ter muito claro o que é uma evidência irrefutável. Por exemplo, por que dizemos que houve tortura? Porque há testemunhas, documentos, provas, evidências. A ditadura? Por que tivemos um governo que caçou parlamentares, fechou o Congresso, governou à base de atos institucionais. Isso é uma evidencia de um regime autoritário, você pode não chamar de ditadura se não gostar. Mas não dá para chamar de democracia.
Os livros didáticos podem incorporar o negacionismo?
O livro tem uma ligação forte com a produção historiográfica. Algumas pesquisas novas às vezes demoram para chegar à escola. Mas se o MEC resolver interferir na avaliação dos livros, isso é uma forma de pressionar para que se incorpore negacionismos E não é só na História. Há o criacionismo, por exemplo. Como você vai dar estatuto de opinião científica para o criacionismo? Com todo respeito à religião, não há evidência. Esse tipo de coisa não pode chegar ao livro didático. Eles podem ser diferentes, mas há um limite que não pode ser cruzado. Não pode haver negação do conhecimento.
Qual o impacto de declarações negacionistas vindas do governo?
Isso interfere no trabalho historiográfico porque sinaliza para a sociedade, com toda a autoridade que o presidente tem, que aquela opinião é válida do ponto de vista histórico. A pessoa tem uma posição política diante do nazismo, do comunismo, isso é do cidadão, não cabe ao historiador dizer. O que não pode é construir essa posição política e ideológica às custas da verdade histórica.
Qual a maneira de combater o negacionismo?
Uma maneira é a universidade construir canais de conversa com a sociedade. É começar a pensar no que a gente tem chamado de história pública, como criar conexões, desde a produção audiovisual até uma matéria em um jornal. A produção historiográfica nos últimos 40 anos se voltou muito para o público interno das universidades. Um debate só entre pares. É hora de os historiadores começarem a ocupar esse espaço. A gente não é formado para fazer um bom programa de YouTube, um texto rápido e eficaz, somos treinados para escrever textos longos, complicados e chatos. Mas é um desafio que se coloca hoje.
As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

O Japão e as consequências do fim das Ciências Humanas

Em junho de 2015, o Ministério da Educação, Cultura, Esportes, Ciência e Tecnologia do Japão, conhecido como MEXT, enviou uma carta às universidades nacionais (públicas), alertando que elas deveriam incrementar sua eficiência para satisfazer melhor as necessidades do país.
A mensagem pedia um uso mais racional dos recursos e a priorização de áreas estratégicas – se preciso fosse, as universidades deveriam modificar ou até mesmo abolir seus departamentos de ciências sociais e humanidades para economizar.
Desde então, a carta do governo japonês às universidades ganhou manchetes do mundo inteiro, gerou uma resposta indignada dentro do país e ocasionou reformas e resistências nas instituições locais. Afinal, o que aconteceu após a ameaça de cortar as humanidades?

Crise institucional

A insatisfação do governo japonês com seu ensino superior pode surpreender, mas se explica pela continuada crise que as universidades do país vivem. Embora apareça sempre bem ranqueado nas provas internacionais de ensino básico – no mais recente Pisa, o Programa Internacional de Avaliação de Alunos, os estudantes japoneses ficaram em 8º lugar em leitura, 5º em matemática e 2º em ciências (o Brasil, respectivamente, ocupa a 61ª, 67ª e 65ª posições entre 72 países) – o Japão não repete o desempenho no nível universitário.
Hoje, segundo rankings globais de ensino superior como o Times Higher Education, o país tem apenas duas universidades entre as cem melhores do mundo. Com as mudanças, o plano do governo era aumentar o número para dez até 2025.
Especialistas entendem que o Japão sofre com uma longa redução das taxas de fertilidade, o que vem envelhecendo a população e tornando a estrutura universitária existente excessivamente grande e custosa frente ao que a demanda do país exigiria. Hoje, o Japão conta com 86 universidades nacionais e quase 700 outras instituições superiores, entre universidades privadas ou mantidas por governos regionais. Enquanto as nacionais recebem cerca de 80% das verbas públicas, elas concentram apenas 20% das matrículas.
Ao mesmo tempo, uma bomba demográfica tem mantido o sistema inteiro em constante crise: com a reposição populacional em declínio desde o início dos anos 90, o número de estudantes diminuiu drasticamente no país nas últimas décadas; a quantidade de jovens japoneses com 18 anos, idade em que normalmente deveriam estar cursando o ensino superior, despencou de 2 milhões em 1990 para 1,19 milhão em 2016.
Atualmente, quatro em cada dez universidades particulares não conseguem cumprir suas metas de matrículas, em função da falta de alunos. Além da queda populacional, o Japão tem um número atipicamente baixo de estudantes universitários quando comparado a outros países desenvolvidos – apenas metade dos alunos recém-saídos do ensino médio se matriculam em um curso superior, preferindo cursos profissionalizantes ou o ingresso no mercado de trabalho.
A proporção é inferior à média de 62% da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e de 82% registrada pela vizinha Coreia do Sul. A redução do número de estudantes tem aumentado a pressão da iniciativa privada por uma redistribuição das verbas e, por outro lado, também faz com que o governo passe a cobrar cada vez mais resultados das instituições públicas.

Respostas indignadas

Mais do que causar indignação nas universidades, inclusive nas duas principais instituições do país (a Universidade de Tóquio e a Universidade de Kyoto, as duas que aparecem entre as cem melhores do mundo), a iniciativa do governo também gerou contrariedade mesmo em setores de quem o governo esperava apoio. A Keidanren (Federação das Indústrias do Japão), uma das organizações mais influentes do país, publicou uma nota dura em resposta às iniciativas do governo.
O que a indústria quer em termos de recursos humanos não é que estejam ‘prontos para o combate’”, diz a declaração, em resposta a uma expressão que o governo utilizou ao se referir à preparação de jovens para encarar o mercado de trabalho. “Elas querem empregados que estão saudáveis, em boa forma física, e imbuídos de um senso de virtude pública”.
A Keidanren defende ainda que “estudantes universitários devem adquirir um entendimento especializado no seu campo de conhecimento e, de forma igualmente importante, cultivar um entendimento da diversidade social e cultural através de aprendizados e experiências de diferentes tipos”.
Um estudo recente mostrou, por exemplo, que alunos de cursos altamente técnicos como as engenharias e as ciências naturais e matemáticas tinham piores hábitos de leitura do que aqueles matriculados em cursos de humanidades: segundo levantamento da Federação Nacional das Associações Cooperativas Universitárias do Japão, a Univcoop, cerca de 51,4% dos estudantes destes cursos costumam ler com diferentes níveis de frequência, contra 45,5% daqueles matriculados na área de ciências e apenas 37,4% nas áreas médica e farmacêutica.
Empresas estrangeiras no Japão costumam lamentar que é difícil recrutar empregados capazes porque a maioria dos candidatos tem uma falta de capacidade de reflexão, tem um inglês ruim e são excessivamente passivos, esperando por instruções em vez de tomar iniciativa”, argumenta Jeff Kingston, professor de estudos asiáticos da Universidade Temple, nos Estados Unidos.
As humanidades não são uma panaceia, mas minimizar seu papel no ensino universitário tem mais chances de exacerbar do que de retificar essas deficiências”, defende o pesquisador.

Resposta do governo e consequências

Diante da reação, o governo recuou. Já nas semanas seguintes à carta original que causou a controvérsia, o Ministério da Educação buscou rebater os questionamentos dizendo que havia sido mal interpretado.
Segundo Yutaka Tokiwa, um oficial do MEXT, o “real significado” da mensagem enviada às universidades era reforçar que seriam necessários sacrifícios para sobreviver em um cenário com menos alunos e menos recursos, sem fazer uma exigência explícita pelo fechamento dos departamentos de humanidades – em vez disso, argumentou Tokiwa, a carta do ministério apenas questionava os reitores se eles acreditavam que a estrutura atual era a melhor para enfrentar a crise.
Apesar do desmentido, a demanda do MEXT por diminuir a oferta de cursos de ciências sociais e humanas não era exatamente contraditória à postura manifestada pelo governo anteriormente.
Em vez de aprofundar pesquisas acadêmicas que são altamente teóricas, vamos conduzir uma educação mais prática e vocacional, que antecipa melhor as demandas da sociedade”, havia afirmado o primeiro-ministro Shinzo Abe em uma reunião da OCDE em 2014.
Além disso, pelo menos 26 universidades japonesas anunciaram o corte ou fechamento total de seus cursos nas áreas afetadas, e estima-se que pelo menos 1,3 mil vagas para professores de humanidades tenham deixado de ser abertas no ensino superior após a carta do ministério.
A reforma perdeu força após o então ministro da EducaçãoHakubun Shimomura, renunciar ao cargo no final de 2015. Por sua pasta também incluir o Esporte, Shimomura era um dos principais envolvidos na preparação para os Jogos Olímpicos de 2020, e foi derrubado após polêmicas envolvendo o primeiro projeto de reforma do Estádio Nacional de Tóquio, que viu seu orçamento inicial dobrar para 2 bilhões de dólares e teve a renovação cancelada. Um novo projeto, mais barato, foi selecionado após Shimomura deixar o MEXT.

Subsídios e gratuidades buscam atrair alunos

Apesar das manchetes internacionais que a carta do governo japonês rendeu na época, as mudanças prometidas afetaram principalmente as universidades onde os departamentos de humanidades já eram reduzidos. As instituições mais fortes, como a Universidade de Tóquio e a Universidade de Kyoto lideraram a resistência desde o início, anunciando que não alterariam seus cursos.
Segundo Makoto Gonokami, presidente da Universidade de Tóquio, sua instituição não sofre com a falta de interessados em ingressar nos cursos que o governo ameaçava reduzir. A única mudança, argumenta Gonokami, é que “as universidades nacionais não poderão mais depender tanto das verbas estatais”.
Para contornar a crise que afeta seu ensino superior, o governo japonês passou a investir em outras iniciativas, bem menos controversas. Com o objetivo de aumentar a relevância internacional da ciência produzida no país, o Japão iniciou em abril um projeto para ampliar o ensino do inglês nas escolas e aumentar a familiaridade dos estudantes com o idioma desde cedo.
A idade mínima para o início das aulas foi reduzida em dois anos, começando agora na terceira série do ensino fundamental. Para aumentar a proporção de jovens interessados em cursar o ensino superior, o governo também começou a discutir neste ano um incremento dos subsídios para os estudantes, aumentando a gratuidade em todos os níveis de ensino, incluindo as universidades.
Outras questões, no entanto, seguirão desafiando as autoridades pelas próximas décadas. O declínio populacional japonês não dá sinais de arrefecer, e algumas estimativas indicam que, até 2050, a população terá caído para cerca de 90 milhões de pessoas, frente aos 125 milhões atuais.
Com menos recursos e estudantes, as universidades também precisam encontrar maneiras de continuar a formar cientistas – mesmo nas áreas técnicas priorizadas pelo governo de Shinzo Abe.
Atualmente, a maioria dos jovens que se destacam na pesquisa científica não tem permanecido na academia, preferindo empregos mais lucrativos na indústria: menos de 10% dos japoneses que concluem um mestrado continuam os estudos e fazem o doutorado.
O pouco interesse em avançar com as pesquisas acadêmicas faz o Japão temer pela continuidade da excelência científica que começou a construir após a Segunda Guerra Mundial: desde a virada do século, o Japão já teve onze Prêmios Nobel nas áreas de Física, Medicina e Química – dez deles trabalhavam em universidades do país ou do exterior.
Maurício Brum e Murilo Basso, Gazeta do Povo
https://www.pragmatismopolitico.com.br/2019/04/japao-crise-extincao-de-cursos-de-humanas.html?fbclid=IwAR24PDBl2oK-adNkHgmSccudJYvMCAa5V9pNfL8uFQ0qe7W4XWaCmtLlZ1s




segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

As prisões da miséria

O Autor
Loïc Wacquant é professor de sociologia na Universidade de California-Berkeley e pesquisador no Centro de Sociologia Europeia do Collège de France. Foi professor visitante em Paris, Los Angeles, Rio de Janeiro e Nova Iorque. É um dos fundadores do grupo ativista “Raisons d´Agir” e colaborador do Monde Diplomatique.
Ganhou o prêmio da Fundação MacArthur.
Esteve no Brasil e estudando as desigualdades sociais, o sistema carcerário e judiciári.
Dentre suas obras mais conhecidas estão: “As Prisões da Miséria”(Zahar,2001), "Punir os Pobres - A Nova Gestão da Miséria nos EUA" (Freitas Bastos Editora, 2001) e "As Duas Faces do Gueto" (Boitempo Editorial, 2008).
Introdução
Em “As Prisões da Miséria” o autor mostra como o programa Tolerância Zero se transforma, a partir de uma bem montada rede entre instituições acadêmicas, estatais, entidades sociais e de mídia, em um baluarte da luta contra a violência, esmiuça o discurso neoconservador que sustenta esse tipo de política e demonstra como o Estado de Bem Estar Social deixa de existir nos EUA e na Europa, dando lugar a um Estado de Punição a partir da criminalização da miséria e das classes operárias.                                          
Na disciplina Espaço Urbano: História da Cidade e Suas Representações pudemos ver, entre outras coisas, a cidade configurada como um espaço de demonstração e disputa de poderes, no texto de Wacquant poderemos perceber a utilização da cidade como meio de controle e criminalização das populações “indesejadas”. Por esse motivo e por se tratar de uma das obras que serão utilizadas em nosso trabalho de conclusão de curso, optamos por apresentar a resenha deste livro como trabalho de conclusão de módulo.
Parte I – Como o “bom senso” penal chega aos europeus
O autor começa fazendo um apanhado das idéias que desenvolverá ao longo do livro.
Descreve a Europa como local atingido diretamente por um discurso ideológico conservador que vê as classes pobres, os jovens e os estrangeiros como agentes causadores da violência e dos distúrbios urbanos acontecidos em cidades centrais do continente, principalmente Londres e Paris; aponta esse discurso como sustentáculo de politicas públicas que visam a transformação do Estado Previdência em um Estado Penitência; elege os EUA como principal irradiador desse discurso a partir da criação de uma rede formadora de opinião que une institutos acadêmicos, órgãos estatais, organizações sociais e de mídia, além das firmas que lucram com o sistema carcerário norte-americano.
Segundo o Wacquant, essa rede se difunde a partir de bases estatais dos EUA como o Ministério da Justiça Federal e o Departamento de Estado (órgão encarregado das relações exteriores) juntamente com organizações que o autor chama de “para-públicas” ligadas à administração policial e penitenciária, às associações de vítimas dos crimes e à mídia.
O autor também aponta como grandes formuladores das políticas de penitência os institutos de consultoria, adotados tanto pelo governo dos EUA quanto da Inglaterra sob Reagan e Thatcher, respectivamente. Esses institutos partem da crítica ao que o autor chama de “contrato social fordista-keynesiano” para pregar um Estado socialmente mínimo e penalmente forte.
Como mentor e principal articulador dessa teoria está o Manhattan Institute que, em 1984 lança um livro chamado “Losing Ground”, de Charles Murray, “(...) um politólogo ocioso de reputação medíocre. O Manhattan Institute lhe ofereceu 30.000 dólares e dois anos de tranquilidade para escrever Losing Ground: American Social Policy, 1950-1980.(WACQUANT, 2001, p. 22)
Essa obra se transformou na bíblia dos governos que adotaram a política do Estado-Penitência, depois de uma bem montada estratégia de marketing promovida pelo Manhattan Institute.
 
(...) Um especialista em relações públicas foi contratado para promovê-lo; um milheiro de cópias foi enviado a título de gentileza a jornalistas, eleitos e pesquisadores cuidadosamente peneirados. Murray foi “colocado” no circuito dos talk shows televisados e das conferências universitárias, e encontros foram organizados com diretores e comentaristas da imprensa. O Manhattan Institute chegou a empreender um grande simpósio em torno de Losing Ground, pelo qual os participantes, jornalistas, especialistas em políticas públicas e em ciências sociais, fizeram jus a “honorários” que chegavam a 1.500 dólares afora hospedagem grátis num hotel de luxo no coração de Nova York. Como foi publicado no auge da popularidade Reagan e como remava no sentido da corrente política dominante – (muito) menos Estado (social) -, essa obra recheada de absurdos lógicos e erros empíricos tornou-se de um dia para o outro um “clássico” do debate sobre a ajuda social nos Estados Unidos. (...)”  (WACQUANTE, 2001, p. 23)
 
 
Segundo Murray, o Estado Previdência estimula a inatividade e induz as classes populares a uma degradação moral sendo uma dessas características, e a mais grave de todas, as uniões “ilegítimas”, causadoras direta da violência urbana.
O Manhattan Institute lançou também a revista “City”, distribuída entre políticos, altos funcionários, empresários e jornalistas, cuja base do discurso era a qualidade de vida. Para discutir o assunto a publicação utiliza como idéia motriz o caráter ordeiro do espaço público como indispensável à vida urbana o que contraria a natureza das classes pobres, adeptas da desordem, terreno natural do crime.
Outra ação do Manhattan Institute foi a difusão da “Teoria da Janela Quebrada” que prega o combate ostensivo aos pequenos delitos como forma profilática.
Um dos participantes desse debate e adepto dessas teorias era Rudolph Giuliani, mais tarde prefeito de Nova Iorque, cuja gestão deu plenos poderes às forças repressoras do Estado para perseguir moradores de bairros considerados “sensíveis”, pequenos delinquentes, moradores de rua e sem-teto, fazendo da cidade uma vitrine do “Tolerância Zero”.
Esses argumentos serviram como alicerce da política de William Bratton na reorganização do trabalho policial em Nova Iorque.
 
O objetivo dessa reorganização: refrear o medo das classes médias e superiores – as que votam – por meio da perseguição permanente dos pobres nos espaços públicos (...)” (WACQUANT, 2001, p. 26)
 
A partir da gestão Giuliane, o orçamento da polícia de Nova Iorque é aumentado em 40% , atingindo a cifra de 2,6 bilhões de dólares, quatro vezes mais do que os investimentos em hospitais públicos, por exemplo. (Cf. WACQUANTE, 2001, p. 28)
Com o Tolerância Zero a queda da violência se apresenta idêntica a da cidade de San Diego, adepta da polícia comunitária, muito mais barata e com uma queda de 15% no número de prisões efetuadas, ao passo que em Nova Iorque esse percentual sobe em 24%. Além disso o número de reclamações da população com relação à ação policial cai em 10% em San Diego e aumenta em 60% em Nova Iorque. (Cf. WACQUANTE, 2001, p 28/29)
Mas a mídia, em conjunto com o Manhattan Institute, propalam a experiência de Giuliane como se fosse a única maneira eficiente de combate ao crime.
No discurso desses gestores públicos nota-se, principalmente, a preocupação com um “resgate” do espaço público por e para aqueles que a ele, supostamente, têm direito, ou seja, as classes médias e altas, como se o proletariado ou aqueles que estão completamente à margem da sociedade do trabalho, não tivessem direito a conviver nesse mesmo local. Esse banimento da pobreza do olhar daqueles que “têm direito à cidade” se reveste de um discurso acadêmico-científico com ares de modernidade, exatamente como, segundo MATOS, no início do século XX, no Brasil, o discurso higiênico-sanitarista foi utilizado para ordenar a urbanidade e livrar o moderno do decadente. Nesse caso, os representantes da decadência eram o pobre, o imigrante, a mulher, o negro. (Cf. MATOS, 2002, p. 34)
Na Europa e nos EUA a decadência está no pobre, no negro e no estrangeiro. Essas populações veem seus bairros transformados em guetos, com vigilância permanente tanto da polícia como de equipamentos eletrônicos, os investimentos sociais reduzidos e sua mão de obra sub-remunerada ou não remunerada sendo usada em trabalhos compulsórios dentro das prisões ou mesmo fora delas. É a partir da criminalização das massas que os governos dos EUA e Europa vão gerar lucros para toda uma gama de empresas que exploram o sistema carcerário ou gravitam em torno dele.
Essa mentalidade se dissemina também pela América Latina sendo seus principais expoentes o México, a Argentina e a cidade de Brasília sob o governo de Joaquim Roriz.
O resultante dessa política em Nova Iorque foi que, em dois anos, a tropa de referência do Tolerância Zero sofreu diversos inquéritos administrativos  e dois processos federais por abuso de autoridade. Nesse mesmo período 45 mil pessoas foram detidas e revistadas por conta de aparência, vestuário e principalmente, cor de pele.  Dessas 45 mil detenções apenas 4 mil foram consideradas válidas pelos tribunais, as outras 41 mil foram consideradas gratuitas, inválidas ou nulas. Ainda segundo Wacquant, investigações do New York Daily News sugerem que mais ou menos 80% dos homens jovens negros e latinos da cidade foram detidos e revistados ao menos uma vez pelas chamadas forças da ordem. Esses números também apontam para outro problema criado pelo Tolerância Zero: o acúmulo de processos nos tribunais de justiça.(Cf. WACQUANTE, 2001, p. 35)
As queixas contra os abusos das “forças da ordem” registraram-se de forma maciça pela  população pobre, negra e latina, distribuídas em 21 dos 76 bairros da cidade.
 
Segundo o autor “(...) uma das consequências do “tolerância zero”, tal como é praticada no cotidiano (...) é ter cavado um fosso de desconfiança (...) entre a comunidade afro-americana e as forças da ordem (...)” (WACQUANTE, 2001, p. 37)
 
Isso pode ser confirmado segundo os dados que o autor nos aponta:
- Quando perguntados sobre uso abusivo dos policiais  72% dos negros opinam que sim, os policiais abusam de sua autoridade, contra 33% dos brancos;
-Quando perguntados se as brutalidades dos policiais são mais comuns contra os negros, 66% dos negros responde afirmativamente, contra 24% dos brancos. (Cf. WACQUANTE, 2001, p. 37)
É importante verificar que tanto nos EUA como em outras partes do mundo por onde se disseminou, a idéia do Estado Penitência se sustenta em um discurso que criminaliza os “indesejados” e os culpabiliza pela situação na qual se encontram, sem levar em conta o contexto político econômico no qual essas populações estão inseridas.
Alerta MATOS que o historiador desejoso de investigar o cotiano e a cidade como questão, precisa estar atento para os discursos oficiais, quais seus objetivos, para quem estão sendo elaborados e contra quem estão sendo direcionados. (Cf. MATOS,2002, p.34)
Nesse sentido é importante observar como os argumentos utilizados pelos grupos em questão sempre se voltam contra as populações indesejadas naquela localidade seja por questões sociais, raciais ou religiosas, criminalizando esses grupos e buscando justificar a atuação segregacionista do Estado.
Aqueles que necessitam da ajuda do Estado por estarem em condições marginais na sociedade do trabalho são acusados de degenerar moralmente os grupos que estão em acordo com esse tipo de vida. A questão se desloca do campo político-econômico para o campo moral tendo como finalidade a legitimação da manutenção do poder nas mãos daqueles que já o detém. A população passa a ser dividida entre os que são bons e os que são maus como se a questão sócio-econômica de permanente desigualdade em um sistema capitalista passasse por esse viés. (Cf. WACQUANTE, 2001, p. 40-42)
Novamente a ciência vem em apoio a esse tipo de pensamento. Lawrecence Mead prega a fortificação do Estado Penitência e desta vez vai mais longe do que seus antecessores.
 
Para Mead
 
(...) o desemprego deve-se menos às condições econômicas do que aos problemas de funcionamento pessoal dos desempregados”, de modo que “o emprego, ao menos no que diz respeito a empregos “sujos” e  mal pagos, não pode mais ser deixado à boa vontade e à iniciativa dos que trabalham”: ele deve ser tornado obrigatório, “a exemplo do serviço militar, que tem permissão para recrutar no exército” (WACQUANTE, 2001, p. 44)
 
 
Assim, a população marginal ficaria completamente custodiada pelo Estado, tal e qual a população carcerária o é, ou seja, as cidades e os países seriam territórios penitenciários onde aqueles que “pagam suas penas” não têm direito a voz, muito menos a escolha, isso porque para Mead aqueles que não trabalham, não o fazem por imperícia moral ou incompetência e caberia ao Estado, em sua face paternalista, proporcionar a estes indivíduos a oportunidade de seguirem uma vida de retidão de caráter através do trabalho, ainda que em condições sub-humanas e com salários de fome. (Cf. WACQUANTE, 2001, p. 45)
Wacquant critica esse pensamento pontuando algumas fraquezas nos argumentos do autor supra citado, sendo elas:
-Retrocesso para uma visão atomista da sociedade;
-Explicação individualista do fato social;
-Supressão da divisão em classes sociais que são substituídas por oposições como competente/incompetentes, responsáveis/ irresponsáveis e assim por diante.
O autor aponta também para um retorno ao moralismo neovitoriano, sustentado por um “impulso religioso”, citando como exemplo a preocupação das autoridades inglesas em “desencorajar a gravidez ilegítima e elevar o nível do trabalho”. (Cf. WACQUANTE, 2001, p. 48)
Para Mead e os que pensam como ele, o Estado não deve abandonar os pobres tão pouco subvencioná-los, mas gerir suas vidas e nos casos de recusa, agir com sua mão punitiva.
Wacquant relata que houve uma peregrinação dos líderes europeus aos EUA para adquirir o konw how dessa nova maneira de gerir a questão social e carcerária.
 
O ardor e o devotamento desses missionários transatlânticos da segurança não foram vãos: os dogmas da nova religião penal fabricada nos Estados Unidos para melhor “educar” as frações da classe trabalhadora refratárias à disciplina do trabalho assalariado precário e sub-remunerado espalham-se por toda Europa, onde já gozam de status de evidências entre os especialistas que se apinham junto a governos repentinamente preocupados em promover o “direito a segurança” - com tanto zelo que mandaram às favas o “direito ao trabalho.”(WACQUANTE, 2001, p.58)
 
Para Wacquant essa lógica se processa de maneira inversa. Não são as classes trabalhadoras que são refratárias ao trabalho e caminham para a degradação e segregação social. É sim a degradação social causada pela segregação das populações “indesejadas” que as leva a uma situação de miséria crônica e consequentemente a atos de violência (ou de resistência).
Parte II -Do Estado-Providência ao Estado-Penitência: Realidades Norte-Americanas, Possibilidades Européias
O autor começa esta parte demonstrando, a partir de dados numéricos e estatísticos, como se deu, nas últimas décadas o crescimento econômico nos EUA.
 
Segundo Wacquant a parcela mais pobre da população pagou o preço desse crescimento devido ao desmantelamento do Estado-Providência, ao achatamento do salário mínimo e do desemprego ou subemprego, enquanto 5% dos mais ricos embolsaram 95% desse lucro.
Ou seja, o que o autor nos apresenta é que, ao contrário do discurso que chegou à Europa, mostrando um país economicamente forte e desenvolvido, onde todos gozam de segurança, liberdade e qualidade de vida,  o que realmente existe é um lugar de enorme desigualdade social, onde alguns poucos escolhidos gozam e usufruem dos benefícios do Estado (Estado-Penitência), enquanto outros, devido às suas condições sociais, econômicas, raciais etc., ficam à míngua.
Como consequência da diminuição dos investimentos sociais houve uma escalada nos investimentos penais e no número de presos.
Hoje, a população carcerária nos EUA é a maior do mundo e seus habitantes são oriundos das classes que perderam os auxílios sociais, de origem negra e latina (60%) além de estarem detidos por pequenos delitos ou uso de entorpecentes, “crimes” que poderiam ser “pagos” com penas alternativas ou tratamentos em clínicas apropriadas. (Cf. WACQUANTE, 2001, p. 83)
Wacquant demonstra uma mudança nos objetivos do sistema penal nos EUA e que acabou se disseminando pelo mundo, a partir da criação de bancos de dados criminais distribuídos indiscriminadamente pela internet contendo dados processuais, fotografias e identificação genética dos presos, com a possibilidade de serem estendidos a qualquer um que passe pelas malhas da justiça, mesmo para uma simples averiguação. (Cf. WACQUANTE, 2001, p. 85/86)
 
Essa mudança de objetivo e de resultado traduz o abandono do ideal de reabilitação (...) e de sua substituição por uma “nova penalogia”, cujo objetivo não é mais nem prevenir o crime, nem tratar os delinquentes visando o seu eventual retorno à sociedade (...), mas isolar grupos considerados perigosos e neutralizar seus membros mais disruptos (...)” (WACQUANTE, 2001, p.86)
 
A despeito do crescente custo do encarceramento em massa, os EUA adotaram uma tática que baseia-se em quatro princípios:
-a diminuição dos gastos com educação e lazer dos presos;
-o fornecimento de comida e tratamento médico mediante pagamento dos familiares;
-a substituição da vigilância humana pela eletrônica;
-o uso da mão-de-obra carcerária em trabalho compulsório. Entre as empresas beneficiadas com esses serviços estão a Microsoft, TWA, Boeing e Konika. (Cf. WACQUANTE, 2001, p.91)
O sistema penitenciário transformou-se em uma indústria, gerando lucros para empresas particulares que oferecem desde o projeto arquitetônico com todos os seus “acessórios” até aquelas que recrutam e disponibilizam pessoal de vigilância. Esse mercado movimenta em torno de 4 bilhões de dólares ao ano. Existe inclusive feiras de materiais e serviços referentes ao sistema carcerário onde são montados stands das mais diversas fábricas e empresas do ramo. (Cf. WACQUANTE, 2001, p. 92)
De acordo com Wacquant nunca houve tanto afro-americano encarcerado como ultimamente. Isso acontece porque os bairros considerados “sensíveis” e passíveis de maior vigilância são justamente aqueles cuja população negra e latina se encontra.
Como LARA, em “Fragmentos setecentistas: escravidão,cultura e poder na América portuguesa”, explica, a cidade inclui a política.
 
As casas são habitadas por “homens que vivem com sociedade e subordinação”. É de se perguntar: subordinados a quem e vivendo segundo quais regras?” (LARA, 2007, p.29)
 
A própria autora responde quando, mais a frente, afirma que a ocupação dos espaço físicos pelos portugueses “não se faziam sem uma distribuição de poder” porque tinham como objetivo muito mais do que ocupar e defender o terrítório, mas conquistá-lo e dominá-lo. (Cf. LARA, 2007, p.30/31).
Embora LARA esteja falando da conquista da América portuguesa e Wacquant da política de encarceramento dos EUA dos séculos XX e XXI existe uma conexão entre os autores quando se analisa a utilização do espaço urbano como local de exercício e demonstração do poder sobre aqueles a ele submetidos.
No caso da América portuguesa as populações submetidas e vigiadas eram os pretos e mulatos sobre quem recaíram os “cuidados” das rondas criadas pelo Marquês do Lavradio e que percorriam determinados bairros nos domingos e dias santos “para evitar os ajuntamentos e desordens que naqueles dias costumavam fazer os pretos e os mulatos” (LARA, 2007, p. 52)
Nos EUA, as populações consideradas “perigosas” misturam negros e latinos, todos confinados em bairros e guetos para melhor serem vigiados e mais facilmente encarcerados.
Os números e dados do sistema penal norte-americano demonstram essa “preferência” das autoridades por estes perfis de infratores, que segundo Mead são naturalmente propensos a esse tipo de conduta e segundo Wacquant são perseguidos por uma política social de desamparo e ostensiva repressão policial e penal.
Para Wacquant o sistema prisional assume um papel bem delimitado no que ele chama de “governo da miséria”: controlar metodicamente  as populações desviantes e dependentes. (Cf. WACQUANTE, 2001, p.96)
Esse papel do sistema carcerário o autor analisa sob três pontos:
-A regulação do mercado de trabalho.
O sistema carcerário cumpre dupla função, retirando das ruas uma massa de desempregados e gerando lucros às empresas de segurança privada.
-A exclusão de grupos étnicos indesejáveis.
Na visão do autor a prisão substitui os guetos de maneira mais eficiente, pois evita também a sublevação dessas populações.
-A transformação da população pobre e encarcerada em objeto de lucro
Os serviços prestados pelo Estado, tanto os carcerários como os sociais, veem sendo paulatinamente substituídos por empresas privadas. As casas de detenção servem como “ponto de encontro” dessa população funcionando para um maior controle de suas ações e como local onde será encontrado material farto e fácil para a atução das empresas privadas que gerenciam o serviço social norte-americano.
O autor afirma que toma a análise do sistema penitenciário dos EUA como ponto de partida para aquilo que vem acontecendo em quase todo o mundo: a adoção de uma política econômica neoliberal, onde o Estado social é mínimo, o Estado penitenciário é forte e as populações consideradas “supérfluas” são desamparadas, marginalizadas, criminalizadas e finalmente encarceradas. Essas ações se dão a partir da delimitação de áreas urbanas (bairros) como locais de vigilância intensa onde pequenas falhas como atravessar a rua sem usar a faixa de pedestre, caminhar com o cão sem coleira, pichar um muro etc. pode ser motivo de detenção desses cidadãos, ou seja, a cidade passa a adotar uma pedagogia da repressão. O espaço urbano deixa de ser um lugar de trocas e aprendizagem para ser um local de opressão e punição. O Estado passa a selecionar aqueles a quem deseja atender a partir dos lucros políticos ou financeiros que estes indivíduos venham a lhe render ou a seus associados tomando como meios para isso a divisão da cidade em zonas de vigilância mais ou menos intensificada, sempre de acordo com as características raciais, sociais ou econômicas de seus moradores.
Considerações Finais
A partir da leitura de “As Prisões da Miséria” pudemos identificar algumas coincidências do que é relatado na obra com o que vem acontecendo no estado de São Paulo, onde a população carcerária é de 170 mil presos, a maior do país. Porém por falta de dados não podemos afirmar que essa seja a política adotada pelo Governo para gerenciar seu sistema carcerário. Para tanto seria necessário analisar e comparar dados relativos ao sistema penitenciário, judiciário, social, de saúde, educação e habitação locais. O que talvez façamos mais adiante se for demanda da pesquisa que pretendemos colocar em curso.
Com relação ao que estudamos na disciplina Espaço Urbano: História da Cidade e Suas Representações pudemos identificar, a partir da leitura dos textos e das aulas ministradas que a cidade continua sendo o “teatro do poder” onde ele é exercido através de seus ritos e seus monumentos são exibidos, que o espaço urbano serve como meio de intervenção do Estado, entre outras coisas, para separar as populações entre os adaptados e os inadaptáveis e que a cidade-questão, citada por MATOS, precisa ser pensada com menos ingenuidade não apenas pelos cidadãos mas principalmente por aqueles que a tomam como seu objeto de estudo.
Bibliografia
WACQUANT, Loïc. As Prisões da Miséria, RJ: Zahar, 2001.
Bibliografia Complementar
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: história da violência nas prisões, 38 ed., RJ: Vozes, 2010.
LARA, Silvia Hunold. Fragmentos Setecentistas: escravidão, cultura e poder na América portuguesa, SP: Cia. das Letras, 2007.
MATOS, Maria Izilda Santos de. Cotidiano e Cultura: história, cidade e trabalho, Bauru: EDUSC, 2002.


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Sem título



Quem me dera viver em um mundo onde o único incômodo das pessoas fosse elas mesmas.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Sem título


Eu não espero mais pelo telefonema e nem pelo edema que um dia, certamente, virá.
Eu não espero por alguém e nem por algo.
Simplesmente, vivo e cultivo em mim aquilo que há de melhor para poder desfrutar de minha agradável companhia.