
Aproveitei meus últimos dias de férias para assistir ao carnaval pela TV.
Aprecio o desfile das escolas de samba tanto do Rio como de São Paulo e quando não viajo e nem estou com ânimo para pular acabo passando minhas madrugadas em frente à TV vendo tudo o que posso, inclusive as apurações.
Esse ano estou meio apática e sem grana, sendo assim optei pelos desfiles e comecei pelo começo. Fiquei a madrugada de sábado e de domingo vendo as escolas de São Paulo passarem pelo Anhembi e constatei que a rede Globo conseguiu piorar aquilo que já havia perdido a qualidade nos últimos anos: sua transmissão do evento. Eram tantas coisas a serem feitas que o carnaval ficou como pano de fundo. O auge da coisa se deu durante o desfile da Gaviões da Fiel, que até agora estou esperando passar.
A Fiel vinha com 4.300 componentes,alegorias grandiosas e tinha apenas míseros 65 minutos para atravessar a avenida (um erro da Liga, apontado por mais de uma vez pela consciente Leci Brandão), sendo assim impôs aos seus foliões um ritmo mais rápido que as demais agremiações (o mesmo fizeram a Mancha Verde, com 4 mil integrantes e Vila Maria, com 4500 pessoas) e a rede Globo, sem se dar conta disso, seja por inocência, por incompetência ou simplesmente pela arrogância de quem detém a exclusividade de transmissão de um evento como esse, resolveu colocar no ar, no momento em que a alvinegra iniciava o seu desfile, um vídeo onde carnavalescos, mestres de bateria etc. dão seus depoimentos sobre o trabalho realizado este ano, além disso, ao término da reportagem, quando todos esperavam enfim ver o início da Fiel na avenida, a câmera voltou à “Esquina do Samba” para que Chico Pinheiro iniciasse uma entrevista inócua com um cardiologista.
Quando finalmente as imagens foram para a avenida não havia mais condições de fazer tomadas decentes da evolução da comissão de frente e nem do primeiro casal de mestre sala e porta bandeira, pois este se encontrava entre a comissão e o carro abre alas, do qual se viu apenas um imenso gavião em bronze. O que se passou depois foi ainda pior, as alas foram pessimamente exploradas e as câmeras não sabiam se mostravam o desfile em si ou se corriam atrás de jogadores famosos e modeletes seminuas.
De mau gosto também foi a já batida presença de Márcio Canuto na platéia e a de um pobre repórter que ficou na avenida tentando captar detalhes que em nada acrescentam ao entendimento de um desfile carnavalesco. Jogar Maurício Kubrusly na dispersão fazendo papel de apontador do tempo também não foi uma idéia muito boa, afinal Maurício tem inteligência e potencial para coisas melhores em uma cobertura como essas.
Dentre os comentaristas, a única lúcida era Leci Brandão, como sempre com firmeza e conhecimento do que falava, matava a cobra e mostrava o pau. Digna mesmo no meio de tanto absurdo.
Das apresentações em si, não posso falar nem de Rosas de Ouro e nem de Vai- Vai, porque infelizmente o sono já havia me vencido quando de suas passagens.
A Mancha Verde me deixou com um profundo pesar, junto com a X-9 era a escola pela qual meu coração vagabundo palpitava esse ano. Gostei do samba, da letra e da música. O enredo era uma bela sacada, homenagem aos dez anos da agremiação a partir do tema educação, porém o que vi foram pessoas pouco empolgadas, ao contrário da Mancha de anos anteriores, sem contar o uso abusivo das cores do pavilhão em um só matiz, somado à pouca plumagem das fantasias que fez o visual perder em volume e criatividade. O destaque era o carro chinês, que ao contrário de tudo que foi mostrado, tinha uma bela combinação de cores e muito movimento. Mas nem tudo são pedras no caminho de meus queridos palmeirenses, Paulo Serdan está de parabéns pelo uso do preto e branco e pelo convite a Tobias, corintiano declarado, que foi um dos destaques do último carro. Essa foi uma das atitudes mais dignas que vi durante as apresentações de São Paulo. Deixo aqui minha torcida e meus votos de sorte à Mancha e a todos os seus bambas!
Me surpreendi com a Pérola Negra. O cortejo da comunidade de Vila Madalena começou sem muitas promessas, mas ao longo da passarela a Pérola deu um show de bom gosto e bom senso. Com um samba de letra linda, seus componentes pularam, sambaram e cantaram em figurinos simples, mas de uma criatividade ímpar. Mesmo sem as luxuosas plumas, o design das fantasias e as cores escolhidas pelo carnavalesco davam volume e movimento ao conjunto. O visual era belíssimo. O desenvolvimento do enredo, uma homenagem a nossa cultura através da figura de Rolando Boldrim, emocionou até os corações mais empedernidos. Belo carnaval, parabéns a Pérola Negra e à comunidade de Vila Madalena.
Pena que a essa altura o Anhembi já estava vazio pois, ao contrário do carioca que espera até o fim do espetáculo nas arquibancadas da Marquês de Sapucaí, o paulistano me passou a impressão de que se preocupa mais com torcer do que em apreciar desfiles de escolas de samba e assim, ao término da apresentação de seu grêmio preferido, com a sensação de dever cumprido, ele bate em retirada do sambódromo, proporcionando a quem assiste pela TV uma sensação de que algo tão bem feito é pérola jogada aos porcos.
Finalizando, acredito que Mocidade Alegre e Império de Casa Verde são duas das demais candidatas ao título de 2010. Apresentaram espetáculos de luxuoso visual e que, até onde sei, não tiveram comprometimentos técnicos. A Império não empolgou a arquibancada, mas empolgar quem está disposto a torcer também é um pouco mais complicado.
Parabéns pela sua análise.
ResponderExcluirBrilhante. Eu como um eterno folião fiquei entusiasmado como você enquanto espectadora televisa, entende de carnaval.
Parabéns mais uma vez!
Oi Victor, obrigada pela força!
ResponderExcluirAbraços