INTRODUÇÃO
Este
trabalho tem como temática principal a condição feminina na Colônia. Por ser um
tema extenso, limitamos a pesquisa, de cunho bibliográfico, à condição da
mulher negra, no século XVIII, nas Minas Gerais.
Nossa
questão principal é saber se houve resistência feminina à escravidão e como ela
se estabeleceu.
A
escolha deste recorte se deve a alguns fatores:
-
A condição feminina não pode ser abordada de maneira generalista como se todas
as mulheres fossem iguais. De acordo com suas condições de classe, a cor da
pele e o local no qual habitou, a mulher construiu diferentes espaços de
resistências e subversão à ordem vigente, que lhe impelia à invisibilidade
social, cultural e histórica.
-
O chamado Período Colonial estendeu-se por quase trezentos anos e dependendo
das relações políticas e econômicas do momento, da localização geográfica,
entre outras questões, também foram bastante diferentes as relações sociais e
culturais que se apresentaram.
-
A condição da mulher negra, no século XVIII, nas Minas Gerais é favorável à
reflexão sobre a condição feminina a partir de outro olhar. É outra face da
História das Mulheres que demonstra a importância dessas personagens e suas
atividades comerciais no contexto social e urbano daquele momento.
Para
melhor explicitar o que encontramos nos textos pesquisados, dividimos o trabalho
em dois tópicos.
1- Combates
pela História: a guerra dos sexos na historiografia, onde exploramos texto
homônimo, de Marina Alves Amorim, tratando de como vem sendo escrita a História
das Mulheres e algumas das problemáticas enfrentadas no meio acadêmico. A importância
desse tópico se assenta na possibilidade do leitor refletir sobre as diversas
etapas pelas quais passou a escrita da História das Mulheres, suas dificuldades
e potencialidades, situando a relevância do estudo deste tema em uma graduação
de História.
2-
Da Senzala à Quitanda: as mulheres que
ameaçaram o sistema colonial.
Esse
tópico foi construído a partir de sete textos base, de autores que pesquisaram
a atuação das mulheres negras, forras ou não, nas Minas Gerais, do século
XVIII.
1-
COMBATES
PELA HISTÓRIA: A GUERRA DOS SEXOS NA HISTORIOGRAFIA
No texto “Combates pela
História: a guerra dos sexos na historiografia” a autora investiga as razões da
exclusão feminina na História, formulando questões e indicando respostas a
partir dos dados levantados no trabalho com a produção científica realizada por
mulheres, no programa de pós graduação da UFMG, na área de Ciências Humanas. A
pesquisa, baseada nas teorias de Michelle Perrot e Pierre Bourdieu, relaciona
quantitativamente os trabalhos produzidos por mulheres e o desenvolvimento de
temáticas femininas.
No início do artigo Amorim
afirma que debaterá duas afirmações recorrentes nas pesquisas sobre o assunto:
- a ideia de hierarquia
científica, que destaca alguns temas e minoriza o valor de outros,
- a associação da presença
feminina na produção historiográfica e o surgimento de uma historiografia da
mulher.
A partir daí, a autora expõe
os motivos que, segundo Perrot, causaram a exclusão feminina da narrativa
histórica. Aponta as fontes de pesquisa e o teor dos relatos como causa dessa
invisibilidade, cita ainda os homens como principais responsáveis pelos
registros históricos, razão pela qual a política e a economia estiveram sempre
no centro dos interesses e outros agentes históricos, no caso específico a
mulher, pouco ativa nessas áreas devido a questões contextuais, ficou excluída das
próprias fontes e consequentemente dos estudos historiográficos. A solução para reescrever esses relatos foi o
uso da História Oral e dos arquivos privados. Neles a mulher deixou marcas
indeléveis de sua trajetória como mãe, educadora, trabalhadora etc. Perrot
afirma que a separação entre os espaços público e privado como segmentos
exclusivamente masculino e feminino, respectivamente, é falsa, mas reconhece
uma diferença na maneira como esses espaços são ocupados por homens e mulheres.
Ainda durante a exposição
teórica, Amorim traz à luz uma visão sexista da mulher na escrita histórica.
Através do texto de Perrot são expostas as ideias estereotipadas de Michellet, que
contrapõem homens e mulheres a partir de uma caracterização onde os primeiros
aparecem como representantes da cultura e as segundas como representantes da
natureza. Essa maneira de escrever a história forja a imagem de mulher – mãe –
esposa como algo positivo e de algo negativo para qualquer coisa diferente
desse modelo.
Amorim aponta o movimento
feminista do final do século XIX como responsável pelo questionamento do papel
atribuído à mulher na sociedade em todos os âmbitos, inclusive no
acadêmico. Relata uma cronologia desse
movimento e de seus objetivos, inicialmente voltados para a visibilidade
feminina na Ciência. Nessa época o tom do discurso das feministas era de
denúncia, questionamento, descrição e investigação das condições da vida da
mulher em diferentes tempos e espaços. A consequência disso foi a colocação da
mulher no centro das atenções e a necessidade da produção de uma teorização do
feminino, etapa seguinte dos estudos iniciados pelo movimento. Surgiu assim o
conceito de gênero, e o olhar daquilo que é próprio “do homem” ou “da mulher”
passou a ser tratado como oriundo da construção social e não mais da
determinação biológica do sexo. A partir da década de 60, as ativistas e
acadêmicas feministas foram burilando as teorias, discussões e produções sobre
o tema até conseguirem um reconhecimento definitivo na década de 80.
Além disso, a autora
acrescenta uma mudança nos rumos da historiografia. Com o término da chamada segunda geração dos Annales os
historiadores voltaram seus estudos para temas mais intimistas e menos
abrangentes, isso fortaleceu o desenvolvimento dos trabalhos referentes à
mulher que já vinham sendo gestados na academia.
Quando se questiona sobre
qual a imagem da mulher construída pelo movimento feminista, a autora nos
mostra que desde a produção de Perrot, onde a mulher é mostrada como detentora
de poderes, até os trabalhos mais atuais, que questionam a construção dessa
imagem pelo perigo que representa aos ideais feministas, ainda não se chegou a
uma resposta satisfatória de qual seria o papel da mulher na sociedade
contemporânea e que ainda existem muitos espaços a serem conquistados.
Até
aqui falamos de uma mulher genérica, porém é preciso, ao estudar a condição
feminina em qualquer tempo ou espaço, fazer recortes de cor e classe social,
principalmente.
Para
Marc Bloch devemos partir de questões do presente para investigar o passado.
Nesse sentido, a história da mulher negra tornou-se campo importante de
investigação.
O
movimento feminista tem percebido que não é possível abordar a luta das
mulheres em uma frente única. As mulheres suscitam questões diversas de acordo
com sua situação social, localização geográfica, cor da pele etc.
Dentre
as tantas questões do feminino, as que atingem as mulheres negras chamam
atenção porque as discriminações por elas sofridas não se restringem ao fato de
serem mulheres, mas também pela cor de sua pele, o tipo de seus cabelos etc.,
além de estarem impregnadas em todos os setores sociais como educação, saúde,
trabalho, moradia etc.
Historicamente,
devido à condição de escravas, as mulheres negras sofreram todo tipo de
violência, porém o fim da escravidão não modificou essa situação.
Para
termos uma ideia dos números, as mulheres negras são 44% da população
brasileira. Dos 5.600 casos de feminicídio ocorridos no Brasil, 61% das vítimas
são mulheres negras; no Rio de Janeiro, 54% das mulheres estupradas são negras.
Em 2002, o rendimento salarial de uma mulher branca, na região metropolitana de
São Paulo era de R$ 765,00, enquanto de uma mulher negra não chegava a R$
500,00 _ R$ 412,00. No trabalho doméstico infantil, as meninas negras
representam 75% da mão de obra. Na saúde, os índices são ainda mais
expressivos: 44% das mulheres negras não tiveram acesso ao exame de mamas em
2004 e o número de casos de HIV subiu de 36% para 42,4%, no período de 2000 a
2004, enquanto em mulheres brancas esse número declinou.
Nas
cadeias, onde o número de mulheres em 2012 era de 35 mil, as mulheres negras
representam 61% das detentas, segundo do Departamento Penitenciário Nacional
(DEPEN).
Em
2008, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) constatou, a partir do
levantamento dos chefes de família que moravam em favelas, que 66% deles eram
negros, desses 66%, as mulheres eram responsáveis por 21% dos lares.
Diante
dessa situação podemos constatar que, embora a escravidão tenha sido proibida,
a população negra continua sofrendo os resquícios de suas marcas, marcas que
atingem a mulher de maneira mais contundente.
Porém,
assim como no passado, as mulheres negras têm criado espaços de resistência se
organizando em movimentos sociais, seja ele o movimento feminista, o movimento
negro, de habitação, estudantil ou operário, ganhando visibilidade seja na
sociedade ou no mundo virtual, através de portais e blogs onde escrevem e
publicam seus textos, divulgam suas ações tanto nas áreas de cultura como na
militância direta, mas os reflexos dessa mobilização ainda são insuficientes.
2 -
DA SENZALA À QUINTANDA: AS MULHERES QUE AMEAÇAVAM O SISTEMA COLONIAL
Nas
Minas Gerais setecentista as mulheres negras, assim como nos aponta Perrot, não
restringiram suas ações ao âmbito privado e/ ou rural, ao contrário,
transitaram por todos os espaços públicos e exerceram, muitas vezes, funções de
mando e prestígio social, conseguiram assim, preservar suas tradições culturais
e, em alguns casos, foram vistas como verdadeiras ameaças a ordem colonial
(concubinas, quitandeiras, negras de tabuleiro).
2.1 Sexualidade
Não
como falar de mulheres no período colonial, sejam elas brancas ou negras, ricas
ou pobres, sem tocar na questão da sexualidade feminina.
“As mulheres foram
tratadas de forma específica pela administração colonial, pela Igreja, pela
legislação” (http://www.fafich.ufmg.br/pae/colonia/orientacoes/mulheres_mg.pdf)
O
que significa, especificamente, o controle da sexualidade feminina em proveito
do Estado e da Igreja.
Marina
Basso Lacerda explica que esse controle não interessava apenas aos homens (pais
e maridos), mas à Igreja e ao Estado. A primeira combatia o concubinato e
desejava manter os padrões morais da religião, ao segundo interessava manter a
sociedade claramente dividida entre nobres e plebeus além de fazer o controle
das heranças que, com o adultério e o concubinato, podiam gerar mestiços,
deixando turvas as relações sociais e dilapidar as heranças.
Assim,
as relações sexuais na Colônia sempre tiveram um cunho violento para as
mulheres brancas e negras.
As
mulheres brancas eram obrigadas a contrair matrimônio com quem seus pais
escolhessem. Geralmente faziam isso muito novas, entre 13 e 15 anos, com homens
bem mais velhos. Eram entregues virgens e tinham o sexo como obrigação sexual.
O prazer no ato sexual, mesmo entre casados, era condenado.
As
mulheres negras eram vistas como objetos, parte do patrimônio e por isso foram
submetidas a toda sorte de violência e humilhação; do estupro do senhor à
prostituição por ele imposta.
Para
Caio Prado Jr., havia no Brasil uma “indisciplina sexual”. Todos os senhores
faziam uso sexual de suas escravas, apesar dos discursos oficiais condenarem
tais práticas por razões políticas e econômicas, nunca por pudores morais,
muito menos humanitários.
A
visão da mulher negra como objeto era tão acentuada que uma das incumbências do
Conselho Ultramarino (órgão encarregado da gestão das Capitanias) era tomar
providências contra a “lascívia das escravas”, juntamente com outras
atribuições de cunho material.
O
corpo das escravas serviam como máquinas de trabalhar, procriar e fazer renda.
Isso porque alguns senhores viam as negras como parideiras de mão de obra
barata, outros as utilizavam na prostituição e iniciavam sexualmente seus
filhos com elas.
Ainda
segundo Caio Prado, em muitos casos, para servir a casa grande era necessário
antes passar por crivos de ordem estética.
As
“intimidades” aconteciam neste local e geravam mais violência, dessa vez
física, contra as negras escravas. Foram inúmeros os casos de sinhás que,
levadas pelo ciúme e raiva, agiram contra as amantes de seus maridos mandando
arrancar-lhes os olhos, a língua, chicoteá-las etc.
Para
Gilberto Freyre essas relações demonstravam o sadismo do colonizado.
“Existia uma
perversidade que permeava as relações sexuais entre senhor e escrava. Para
Freyre (1986, p.13,86,277,343,443) tais relações sempre foram relações entre
“vencedores e vencidos”, sendo que a escravidão era mesmo “o grande excitante
da sensualidade” entre nossos colonizadores.” (LACERDA, 2010, p. 48)
Segundo
Joaquim Nabuco, a escravidão reduziu a procriação humana aos interesses
econômicos dos senhores.
Gilberto
Freyre também aponta a necessidade de procriação e povoamento como um dos
motivos da aproximação violenta entre negras e brancos. Uma vez que eram
insuficientes as mulheres brancas na Colônia, a mulher negra serviu para a
satisfação sexual e econômica do senhor.
Por
tudo isso, é possível afirmar que o controle sexual sobre a vida da mulher
branca e a reificação da mulher negra nos aponta forte imbricação entre a vida
íntima e a política.
Para
Gilberto Freyre o sadismo do senhor com relação às suas escravas e o mandonismo
com relação às suas filhas e esposa penetrou a vida política e se perpetuou em
nossa sociedade e nossas instituições.
“Por outro lado, a
tradição conservadora no Brasil sempre se tem sustentado do sadismo e mando,
disfarçados em ‘princípio de autoridade’ ou ‘defesa da Ordem’. (FREYRE in
LACERDA, 2010, p. 51)
Para
Marina Basso Lacerda, no Brasil se repetiu o que aconteceu em outras sociedades
patriarcais; a mulher não exerceu poder político a não ser de forma indireta ou
quando participou de movimentos de insurreição, o que para Mary Del Priore as
fez responsáveis pelo amolecimento das estruturas de poder do sistema colonial,
principalmente ao longo do século XVIII.
A
partir de agora passaremos a apontar as maneiras pelas quais as mulheres negras
contribuíram para esse amolecimento estrutural.
2.2 Concubinas e prostitutas
“A família em Minas
foi marcada por um conflito permanente entre os poderes da Igreja, unidos ao do
Estado, versus a cultura popular
(...). A cada povoado que chegavam, os visitadores recebiam avalanches de
denúncias sobre as mais variadas formas de relacionamento entre casais. Todas
possuíam como elemento comum o fato de se tratarem de uniões livres, sem
oficialização da Igreja.” (FIGUEIREDO in DEL PRIORE, 2012, p. 165)
Esse
tipo de união era o chamado concubinato, segundo Figueiredo, fruto da falta de
mulheres brancas na Colônia e da dificuldade que havia de se realizar o
matrimônio conforme as exigências burocráticas da Igreja. Nas Minas Gerais do
século XVIII, o concubinato tomou proporções maiores e mais preocupantes do que
em outros recantos, uma vez que a atividade mineradora se dava em âmbito urbano
onde há um afrouxamento do exercício do mando pelos senhores. Outro fator que
fazia dessa prática algo comum era a inserção, nesse meio, de homens livres
considerados “desclassificados sociais”, além de sua mistura com homens e
mulheres escravizados.
A
Coroa Portuguesa viu o projeto colonizador ameaçado, uma vez que a disseminação
das “famílias legítimas” fazia parte do disciplinamento social, um dos pilares
de sustentação do sistema.
Ao
Estado era solicitada, pelas autoridades locais, a vinda de mulheres brancas
para se casarem com os portugueses que aqui haviam se estabelecido.
A
preocupação em oficializar os casamentos sedimentava-se na garantia de manter
separados negras e brancos. Evitar a miscigenação significava manter clara as
relações sociais: brancos que mandam/ negros que são mandados.
“Toda ação estava
orientada por um caráter nitidamente racial: tratava-se da preservação da
pureza de classe dos “homens bons”, o que, em última instância, reforçava a
elite em âmbito local.” (FIGUEIREDO in DEL PRIORE, 2012, p. 170)
Outra
consequência do concubinato, essa de cunho econômico eram as heranças.
Quando
homens brancos amancebavam-se com mulheres negras, tinham filhos mestiços e
deixavam em seu testamento os bens para a concubina, automaticamente, a fortuna
passava das mãos de brancos para as de negros e mestiços.
O
caso mais emblemático de concubinato é o de Chica da Silva, que além de usar o
nome do contratador João Fernandes, levou vida de muito luxo, promovendo
festas, eventos culturais e circulando livremente entre a elite do Tejuco.
Diferentes
das concubinas, mas com raízes sociais semelhantes, estavam as prostitutas,
segundo Henrique Rafael A. Costa.
Henrique
aponta o grande número de mulheres negras em relação às brancas, em local com
muitos homens solteiros como mola propulsora da prostituição nas Minas Gerais.
Como
demonstra Figueiredo, a prostituição tinha várias facetas, desde o senhor que
explorava sexualmente suas escravas até as negras de tabuleiro e quitandeiras
que se aproveitavam do trânsito que tinham entre a população masculina para,
com a prostituição, adquirir dinheiro para a compra de sua alforria.
Havia
também a chamada “prostituição de família”, quando várias mulheres parentes,
viviam na mesma casa, se prostituíam e eram, geralmente, cafetinadas pelo
próprio chefe da família.
“A prostituição
possui então uma função de suplementar a renda(...)“.
A
Igreja e o Estado condenavam a prática da prostituição, que não era considerada
crime, explicitamente por motivos morais mas os verdadeiros interesses, de
ambas instituições, era manter o sistema colonial funcionando e garantir o
menor gasto possível com as crianças enjeitadas, oriundas dessas mulheres.
2.3 Negras de tabuleiro e
quitandeiras
“Preteridas nos
pesados trabalhos de mineração, escravas e forras assumiram um trabalho que, no
Brasil colonial, se tornou essencialmente feminino, o comércio ambulante.” (http://www.fafich.ufmg.br/pae/colonia/orientacoes/mulheres_mg.pdf)
As
chamadas “negras de tabuleiro” andavam pelos arraiais e garantiam o
abastecimento desses locais. Dentre outras coisas, em seus tabuleiros havia o
álcool, que fazia deste comércio perigoso à ordem pública por dispersar a
atenção dos negros e os levar a desviar o ouro que se destinava ao senhor. As
próprias negras constituíam objeto de distração dos escravos e muitas vezes
auxiliavam no contrabando do ouro.
“As mulheres
congregavam em torno de si segmentos variados da população pobre mineira,
muitas vezes prestando solidariedade a práticas de desvio de ouro, contrabando,
prostituição e articulação com os quilombos.” (FIGUEIREDO in DEL PRIORE, 2012,
p. 146)
Nas
Minas Gerais, devido ao ambiente predominantemente urbano, o controle de
atividades desviantes por parte das autoridades sofria considerável prejuízo,
assim as atividades dessas mulheres tomaram maiores proporções nesse local.
As
referências encontradas nos registros oficiais as tratavam como “sutis
ladrões”.
Antonil,
jesuíta italiano que esteve no Brasil, chamou o trabalho das negras de
tabuleiro de “mina à flor da pele” e “rendosíssima lavra”, devido à arrecadação
que proporcionavam a elas ou aos senhores, que muitas vezes colocavam suas
escravas nessas atividades.
“Permitir que
atuassem e se disseminassem significava comprometer grossos volumes da arrecadação do quinto, sentido primordial
da existência da exploração mineral.” (FIGUEIREDO in DEL PRIORE, 2012, p. 152)
Além
disso, a prostituição também foi acoplada a esse trabalho por muitas mulheres
como meio de complementação de renda. Muitas dessas trabalhadoras eram
impelidas à prostituição por conta das altas cobranças de jornais exigidas de
seus senhores.
As
autoridades locais encontraram como forma de controlar esse trânsito impedir as
negras de tabuleiro de saírem dos limites das vilas e arraiais.
Para
controla-las, contava com os capitães do mato e a delatores. As que eram pegas
em delito tinham seus gêneros confiscados e distribuídos entre os presos, eram
condenadas a pena de reclusão de até noventa dias, açoitadas e lhes era cobrada
fiança.
As
quitandeiras e vendeiras sofriam igual perseguição.
“O ambiente em torno
das vendas lembra o de uma autêntica taverna. Diferentes grupos da comunidade
local reuniam-se nas vendas para beber, consumir gêneros pouco comuns,
divertir-se e, por que não, brigar.” (FIGUEIREDO in DEL PRIORE, 2012, p. 146)
Nas
vendas concentrava-se todo tipo de público: escravos, artesãos, homens forros,
oficiais etc. que além de comerem e beberem também participavam de festejos,
batuques e conspirações.
Como
tinham participação significativa no pagamento dos tributos e no abastecimento
das vilas, as autoridades voltaram-se mais ao controle do que à repressão do
comércio.
Dentre
as medidas tomadas pela administração local estavam a alocação das vendas e
quitandas fora das áreas de lavras e em morros, a proibição dos escravos de
andarem nas ruas a noite.
O
conde de Assumar proibiu os negros e negras de terem ou tomarem conta de vendas
e de fazerem batuques e folguedos em lugares que não fossem as senzalas.
Outra
medida para facilitar o controle das quitandas foi a remoção dos balcões para o
lado externo do estabelecimento afim de evitar ajuntamentos em locais fechados.
Ao
longo do século XVIII a presença feminina no controle desses comércios é
crescente.
Em
1716, Vila Rica tinha 190 vendas e 10% delas era controlada por mulheres, em
1773 esse número havia aumentado para 697 estabelecimentos com 70% sob o
controle feminino. A maior parte dessas mulheres eram negras forras (85%), o
que leva a crer que essa atividade era vital no sustento de suas famílias.
Em
1732, o secretário do governo de Minas Gerais, Manuel Afonseca de Azevedo,
encaminhou ao Rei um documento detalhando o funcionamento das vendas. Nele
apontava a conduta imoral com a qual as mulheres agiam e transformavam o
ambiente de comércio em algo próximo a uma alcova.
Ainda
Afonseca:
“Nas mesmas casas
[vendas] têm negros fugidos (...) porque escondendo-se nelas, se ocultam a seus
senhores (...) recolhendo-se também, nas mesmas casas, os frutos que fazem, nos
quais as mesmas negras são às vezes conselheiras e participantes (...).”(FIGUEIREDO
in DEL PRIORE, 2012, p. 151)
À
margem da atividade social, é possível perceber que as vendas transformaram-se
em locais de sociabilidade e solidariedade entre o povo negro, capitaneadas por
mulheres.
Considerações Finais
O texto de Amorim deixa
claro que o papel da mulher na sociedade, ainda hoje no século XXI, após mais
de 100 anos do surgimento do movimento feminista, precisa ser estudado,
questionado e principalmente conquistado.
Segundo sua pesquisa, o
território acadêmico, assim como outros, ainda está muito aquém do que deveria
em relação ao reconhecimento da mulher como sujeito histórico. Para que isso
aconteça não basta que estejamos presentes apenas nos bancos das faculdades ou
produzindo teses, ou ainda que nos contentemos em ocupar esses espaços
fisicamente, é necessário que haja um desejo das mulheres de garantir sua
presença no imaginário social como um ser pleno de direitos e deveres,
colocando – se como centro de discussões contínuas e profícuas para a
definição/ redefinição de seu lugar social. O meio acadêmico é um lugar
propício a essas discussões porém é ainda preciso que esses debates se estendam
para além dos muros da academia e envolvam a sociedade como um todo.
No caso das mulheres negras
podemos afirmar que o caminho a ser trilhado é ainda mais tortuoso.
É visível que desde o
período de escravidão a mulher negra construiu diversas formas de resistência.
Nas Minas Gerais do séculos XVIII chegaram às Irmandades Católicas, tornaram-se
administradoras de fortunas, compraram suas alforrias, mas isso não foi
suficiente para serem reconhecidas como sujeitos históricos.
Os dados de diversas
pesquisas apontam que, atualmente, a mulher negra também transita em todos os
âmbitos sociais, mas não sem sofrer as mesmas restrições que sofria no período
colonial.
Também hoje estas mulheres
constroem formas de resistências, seja engajando-se em movimentos culturais,
sociais, galgando espaços nos mundos do trabalho e da educação ou chefiando
suas famílias, exercendo os papéis de mãe, dona de casa, chefe de família,
muitas vezes em situações bastante adversas. Porém o local a elas destinado,
assim como nas Minas Gerais do século XVIII, ainda é imensamente maior na parte
inferior da pirâmide social, o que demonstra a dificuldade do povo brasileiro
na superação dos preconceitos étnicos e de gênero que emperram a construção de uma sociedade igualitária.
Bibliografia:
1.AMORIM,
Marina Alves. Combates pela História: a “guerra dos sexos” na historiografia. Cadernos Pagu, Minas Gerais, 20:
217-244, 2003.
2.FIGUEIREDO,Luciano.
Mulheres nas Minas Gerais. In PRIORE, Mary Del. (org.). História das Mulheres no Brasil. 10ª Ed. São Paulo: Contexto, 2012.
3.
__________________. Três pretas virando o jogo em Minas Gerais no século XVIII.
In XAVIER, Giovana; FARIAS, Juliana Barreto; GOMES, Flavio (orgs.). Mulheres Negras no Brasil Escravista e do
Pós-Emancipação. São Paulo: Selo Negro, 2012.
4.
LACERDA, Marina Basso. Colonização dos Corpos: Ensaio sobre o público e o
privado. Patriarcalismo, patrimonialismo, personalismo e violência contras as
mulheres na formação do Brasil, 2010, Dissertação (Mestrado em Direito) PUC.
Rio de Janeiro.
Bibliografia Complementar:
1. ARAUJO,Emanuel.
A Arte da Sedução: sexualidade feminina na Colônia. In PRIORE, Mary Del.
(org.). História das Mulheres no Brasil.
10ª Ed. São Paulo: Contexto, 2012.
2.
BLOCH, Marc. Apologia da História ou o
Ofício do Historiador. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2001.
3.KARASH,
Mary. Rainhas e Juízas: as negras nas irmandades dos pretos no Brasil central
(1772-1860). In XAVIER, Giovana; FARIAS, Juliana Barreto; GOMES, Flavio
(orgs.). Mulheres Negras no Brasil
Escravista e do Pós-Emancipação. São Paulo: Selo Negro, 2012.
4.PAIVA,
Eduardo França. Mulheres de “diversas qualidades” e seus testamentos na
colonial, escravista e mestiça capitania das Minas Gerais. In XAVIER, Giovana;
FARIAS, Juliana Barreto; GOMES, Flavio (orgs.). Mulheres Negras no Brasil Escravista e do Pós-Emancipação. São
Paulo: Selo Negro, 2012.
5.PERROT,
Michelle. Os Excluídos da História:
Operários, mulheres e prisioneiros. São Paulo: Paz e Terra, 2010.
6.REIS,
Adriana Dantas. Mulheres “afrodescendentes” na Bahia: gênero, cor e mobilidade
social (1780-1830). In XAVIER, Giovana; FARIAS, Juliana Barreto; GOMES, Flavio
(orgs.). Mulheres Negras no Brasil
Escravista e do Pós-Emancipação. São Paulo: Selo Negro, 2012.
Internet:
1. Africa e Africanidades
2. Blogueiras Negras
3. Devian Art
http://artofthemystic.deviantart.com/art/Venus-of-Willendorf-209276031
4. Faculdade de
Filosofia e Ciências Humanas UFMG
5. Filosofia
6. Instituto Búzios
7. Partido Socialista
dos Trabalhadores Unificados - PSTU
8. Portal Geledes
9. Portal Geledes
10. Revista Forum
11.Sem Reais
http://semreaisgo.blogspot.com.br/2009/11/imagens-do-brasil-de-jean-baptiste.html
12.Taxilunar




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