sábado, 11 de dezembro de 2010

História, Educação e Televisão


INTRODUÇÃO

Em 2000 apresentamos a monografia “Escola e Televisão:alfabetização midiática como alternativa de educação emancipatória.” como trabalho de conclusão do curso de graduação em Pedagogia, na Universidade Católica de Santos. Nela defendíamos a idéia de que era necessário ao cumprimento da função política do sistema escolar de maneira emancipadora, a inserção do ensino da linguagem televisiva pela escola. Não havia então uma proposta de como esse conteúdo deveria fazer parte da educação escolar ou em quais níveis deveria estar inserido, apenas ressaltamos que a metodologia não poderia ser de cunho tradicional porque assim o conteúdo ficaria restrito apenas ao reconhecimento de elementos da linguagem televisiva e a formação crítica do educando seria prejudicada. Nossas pesquisas foram meramente bibliográficas e se basearam principalmente em quatro autores: Theodor W. Adorno, Max Horkheimer,Paulo Freire e Pedro Demo. Fizemos uma abordagem dentro da linha progressista de educação e pretendíamos responder à seguinte questão: Com a inserção da alfabetização de mídia, a escola estaria trabalhando a favor de uma revolução social a partir da emancipação das classes menos favorecidas economicamente?
À época chegamos a acreditar que sim, porém após dez anos, devido aos estudos feitos no curso de pós graduação latu sensu História, Sociedade e Cultura, da PUC – SP, acreditamos que o assunto mereça uma revisão, porque não é mais possível acreditar que a inserção de um conteúdo possa alterar toda uma estrutura escolar criada para atender a expectativas sociais determinadas, muito menos proporcionar, por si só uma revolução social, ainda que a longo prazo. Pretendemos então, utilizar este trabalho de conclusão de módulo, como o embrião de um projeto de pesquisa que aprofunde o tema, focalizando o uso da televisão como documento histórico dentro da sala de aula, e tente responder às seguintes questões: o uso da TV como documento histórico, dentro da sala de aula, proporciona também a aprendizagem da linguagem televisiva de maneira crítica? Além disso, se a resposta a essa questão for afirmativa, esse aprendizado proporciona uma educação emancipatória nos termos pensados por teóricos como Tomaz Tadeu da Silva, Antônio Flávio Moreira e Paulo Freire?
Desenvolveremos este trabalho em dois capítulos, no primeiro abarcaremos as visões de educadores como Tomaz Tadeu da Silva, Antônio Flávio Moreira, Paulo Freire e o historiador da educação, Antônio Gomes Ferreira. Este último mostra como, através dos tempos, a educação escolar serviu à manutenção do poder por parte de membros dos grupos governantes e foi, ao mesmo tempo, um território de disputas simbólicas por parte dos grupos governados. Além disso, o texto de FERREIRA aponta o currículo como um dos principais instrumentos utilizados para garantir que a cultura de um grupo seja legitimada enquanto a de outros é esquecida, pouco valorizada ou mesmo distorcida. Tomaz Tadeu da Silva e Antônio Flávio Moreira escrevem, a quatro mãos, um texto que aborda justamente essa dimensão do currículo, que tanto pode servir para dar à educação escolar uma dimensão emancipatória como para continuar a fazer dessa modalidade educacional uma maneira de servir como campo de disputa entre grupos sociais que se opõem. Para finalizar este capítulo, utilizamos como referência teórica “A Importância do Ato de Ler”, do educador brasileiro Paulo Freire. O autor nos coloca a questão do caráter emancipatório da educação escolar através de um enfoque diverso daquele apresentado por SILVA e MOREIRA. FREIRE foca suas análises sobre os profissionais da educação, apontando a tomada de consciência destes como momento importante para uma mudança de atitude em sala de aula, propiciando um partilhamento do espaço de poder com o alunado através de uma relação dialógica, ou seja, onde todos têm direito à palavra. FREIRE nos mostra essa atitude como o estopim para uma desnaturalização das relações horizontais de poder na escola e o ponto de partida para a construção de uma autonomia intelectual por parte de docentes e discentes.
Teoricamente, está mais do que provada a existência de uma dimensão emancipatória da educação escolar, nossa pretensão no entanto, é finalizar o curso com um projeto de pesquisa que objetive colocar em prática pressupostos teóricos permitindo - nos avaliar concretamente a existência dessa dimensão e a possibilidade de colocá – la em funcionamento dentro do sistema escolar.
Para tanto, inspirados pelo trabalho que deu à Karla Isabel de Souza o título de mestre em educação, escolhemos trabalhar com os meios de comunicação de massa, mais especificamente a televisão, dentro da proposta de Marcos Napolitano, por enfocar o assunto de nosso curso, a História, além de uma necessidade não contemplada ou pouco objetivada na educação escolar, de estudar os meios de comunicação de massa por eles mesmos.
A educação escolar, para atingir seus fins, formatou seus currículos com base em necessidades concretas da sociedade na qual estava inserida (Cf. FERREIRA), além disso, todas às vezes em que houve mudanças sociais a escola foi chamada a dar uma resposta àqueles que faziam uso de seus serviços (Cf. SILVA e MOREIRA).
Na sociedade hodierna, onde os meios de comunicação de massa são cada vez mais disseminados e têm penetração tanto nos ambientes domésticos como nos profissionais, a escola, principalmente a de educação básica, ou seja, aquela que contempla os nove primeiros anos de formação do sujeito, parece estar desligada da necessidade social que se tem do desenvolvimento de estudos sobre esses meios como produtos e produtores de cultura e linguagem.
Como estamos em um curso de História, buscamos nos instrumentalizar para discutir essa questão sem fugir desse âmbito. Para tanto, nos baseamos na proposta de Marcos Napolitano, que nos coloca a possibilidade do uso da televisão como documento histórico dentro da sala de aula e tentaremos, a partir da metodologia utilizada por Karla Isabel de Souza, estruturar um caminho teórico que nos permita chegar ao término do curso com um projeto de pesquisa que proponha a colocação em prática da proposta de NAPOLITANO visando verificar os pressupostos teóricos lançados por MOREIRA, SILVA e FREIRE a respeito da educação escolar.
As propostas de NAPOLITANO e SOUZA são tratadas no segundo capítulo bem como a estruturação da televisão como detentora de uma linguagem própria.

CAPÍTULO 1 – DIMENSÃO EMANCIPATÓRIA DA EDUCAÇÃO ESCOLAR

Neste capítulo abordaremos as origens da escola e sua função social a partir do pensamento de três teóricos da educação: Paulo Freire, Tomaz Tadeu da Silva, Antônio Flávio Moreira e do historiador da educação Antônio Gomes Ferreira. Este último nos mostra com quais objetivos a educação escolar surgiu e manteve seu desenvolvimento ao longo do tempo. FREIRE, SILVA e MOREIRA abordam aspectos teóricos da educação escolar que corroboram a narrativa histórica construída por FERREIRA.
Para entendermos o pensamento de FERREIRA é necessário que exponhamos primeiramente um apanhado de seu texto que contextualiza a educação escolar, caracterizando seu desenvolvimento no continente europeu e subjacente a isso apresenta o conceito de educação do autor.
Em seu trabalho para a Revista Brasileira de História da Educação, FERREIRA demonstra a partir da ascensão da burguesia ao poder e da sofisticação tecnológica exigida pelo refinamento das práticas comerciais, como a escolarização se difundiu no continente europeu tal e qual a conhecemos atualmente.
O autor relaciona a ascensão burguesa com a difusão da escola, demonstrando que com o crescimento do comércio a sociedade sofreu alterações e novas necessidades precisavam ser supridas a partir da formação de mão de obra capacitada. Para a ocupação de quadros que exigiam especializações diferenciadas daquelas existentes nas sociedades feudais era necessário instruir os homens das classes populares e ao mesmo tempo manter a relação de poder existente entre os que detém essas forças e os que não as controlam. Para a realização de tal feito, a Igreja deixa de exercer unicamente a formação e o controle moral da sociedade, que passam às mãos da escola, baseada em ideais liberais de valorização das capacitações individuais acima dos laços consanguíneos. Assim, FERREIRA nos mostra a escola reproduzindo aquilo que estava sendo vivenciado em sociedade; o status social, aos poucos, deixando de ser obtido pelo sangue e passando a ser alcançado pela escolaridade, a burguesia garantindo a manutenção de seu poder oferecendo oportunidades de escolarização diferenciadas aos membros de seu grupo e de outras classes sociais.
Dessa forma podemos entender a afirmação do autor em relação ao conceito de escola:
“A escola deve ser entendida como uma instituição que serve a um tempo determinado e que se configura em função de um determinado tempo.” (FERREIRA-2005,p. 177)
Além disso, FERREIRA encampa a idéia de Antonio Novoa, que confere à necessidade da formação dos Estados Nações a difusão da escola, funcionando esta como um meio de homogeneização cultural, e acrescenta que em cada país essa difusão aconteceu de maneira diferenciada em ritmo e tempo atribuindo esse fato às relações da burguesia com a tecnologia, o que ratifica demonstrando a difusão maior e mais rápida da escolarização nos lugares onde se necessitava de uma mão de obra melhor capacitada para o comércio, devido ao avanço tecnológico alcançado em determinadas regiões, principalmente nos países de religião protestante.
No período medieval a Igreja Católica, tida como guardiã da cultura legada pelo Império Romano, ocupa um lugar importante econômica e politicamente, esse segundo aspecto encontra – se subdividido em duas grandes áreas de sua atuação: a jurídica e a ideológica. A Igreja é a organizadora dos aspectos simbólicos da sociedade feudal, ficando a parte bélica para os senhores feudais. Para manter – se como tal, era necessário ter homens bem formados em suas fileiras, assim a educação ficava quase que exclusivamente reservada aos clérigos, que deviam conhecer profundamente retórica, gramática e latim.
“Mais do que propiciar uma instrução sofisticada, interessava formar clérigos capazes de ser bons difusores da doutrina católica e fiéis executores da Igreja de Roma.” (FERREIRA-2005,p. 181)
Mesmo com essa pretensão, foram a Igreja e seus clérigos os responsáveis pela organização estrutural da vida em sociedade durante a Era Medieval na Europa, devido à formação instrumental que recebiam seus membros.
A partir do século XIII já é possível encontrar as primeiras escolas não clericais em cidades européias, porém essa difusão não aconteceu de maneira homogênea em todo o continente. As cidades onde o comércio estava mais desenvolvido possuíam mais escolas laicas, ainda assim a Igreja Católica conservava sua presença nessas instituições através do estudo do Latim, uma língua de difícil assimilação, que exige enorme dedicação sendo por si só um veículo de valores cultuados pela comunidade católica como a disciplina, devido a maneira como se estrutura (currículo oculto ). É também no século XIII que o papel começa a ser fabricado, esse fato unido à invenção da imprensa e outros avanços científicos que ocorreram ao longo do período medieval serão auxiliadores, segundo FERREIRA, dos conhecimentos religioso e secular, auxiliando consequentemente na difusão das escolas laicas.
No século XIV, com o Renascimento, grupos de intelectuais europeus tentaram desvincular conhecimento religioso de conhecimento científico. Esses movimentos acabaram sendo sufocados pela Reforma e Contra – Reforma e o currículo escolar passa a ser formatado para atender às idéias que católicos, através dos jesuítas, e protestantes nas escolas públicas pretendiam ver inculcadas na população. Assim, mesmo com o desenvolvimento do comércio, a civilização ocidental continuava sem ver atendidas as suas necessidades de avanços tecnológicos pela educação vigente, com seus currículos montados para atender a uma formação mais de cunho político – ideológico do que científico.
A partir do século XVII, com o desenvolvimento científico latente, os ideais racionalistas e empiristas passam a suscitar uma educação diferenciada da anteriormente oferecida.
Segundo o autor, devido à tolerância religiosa, os países da Europa Setentrional andaram a passos mais rápidos na busca da escolarização popular.
Nas regiões católicas a educação popular, embora existente de maneira tímida, passa a levar em consideração a salvação dos filhos do povo através da inculcação de valores de piedade e caridade, apresentando conteúdos que preparavam os carentes para uma vida social e profissional de obediência, dentro da tradição familiar e da doutrina cristã.
Nas regiões protestantes o tom era diferente e pensava – se em uma formação popular não apenas calcada nos ideais religiosos mas também nacionalistas e militares, onde operários fossem capazes de dominar conhecimentos elementares ao desenvolvimento científico e tecnológico, proporcionando a manutenção dos valores daqueles que estavam no poder. O sistema educacional não deixou de ser divido e diferenciado entre os que deveriam dirigir a sociedade e aqueles que deviam ser dirigidos.
Na França e na Inglaterra até o fim do século XIX, início do século XX ainda era o ensino clássico que formava os dirigentes da sociedade. O ensino para o operariado era apenas instrumental, a eles estava destinado o ensino das primeiras letras e conhecimentos rudimentares de cálculo.
No início do século XX, com a complexificação da sociedade industrial, a burguesia se vê necessitada da disseminação da escolarização para o bom andamento da sociedade, ao mesmo tempo, sabe que para continuar a manter o poder não pode oferecer às classes subordinadas uma educação com os mesmos saberes que deseja para si, assim a dimensão política da educação continua a ser utilizada como instrumento de adaptação social
A explanação do contexto de surgimento e difusão da escola na Europa, sob a visão de FERREIRA nos levam a algumas afirmações:
1- A escola está subordinada aos interesses das forças que dominam o poder
2- A escolarização se difunde a partir do crescimento do comércio e das necessidades tecnológicas da burguesia
3- A escola é uma instituição historicamente constituída e por isso reproduz o sistema social em que vivemos.
4- A disputa pelo poder intelectual reside na formulação do currículo escolar.
Diante dessas constatações o autor afirma que a educação escolar é um campo de disputas ideológicas e contestações por parte de grupos considerados oprimidos:
“A escola tem sido fundamentalmente uma instituição cara à burguesia. Isso não significa que não tenha sido útil a outras forças sociais e que não tenha servido interesses contrários aos dos burgueses.” (FERREIRA-2005,p. 193)
FERREIRA explica que ainda que guarde essa contradição a escola é a maneira mais eficaz da disseminação dos ideais burgueses de sociedade, que deve ter sua dimensão política controlada ferrenhamente para garantir, através da difusão cultural, a manutenção de seu poder social, ou seja, devido à eficácia demonstrada no cumprimento de suas funções, a escola ainda é um risco a ser corrido pela sociedade burguesa.
Corroboram os argumentos de FERREIRA a visão que MOREIRA e SILVA nos apresentam a partir de estudos sobre os currículos escolares.
Para os dois pesquisadores brasileiros, assim como para FERREIRA, a educação escolar é um campo de tensão, e a disputa pelo poder simbólico entre os grupos dominados e dominantes se dá no âmbito do currículo escolar, nos momentos de sua formulação e aplicação.
MOREIRA e SILVA apresentam o currículo como um “artefato social e cultural”, demonstrando que sua elaboração parte de uma necessidade de conformação do educando a uma função social que lhe é determinada dentro da sociedade.
“(...) o currículo transmite visões sociais e particulares e interessadas, o currículo produz identidades individuais e sociais particulares.” (MOREIRA & SILVA-2002,p.08)
O currículo, segundo os estudos de MOREIRA e SILVA não pode ser visto como um instrumento neutro. Ele, assim como outros componentes escolares, carrega em si a cultura dos grupos sociais que organizam a educação e isso não é algo aleatório. Elaborar um currículo, assim como preparar uma aula, é um trabalho que se utiliza da memória e do esquecimento, valorizando aquilo que se deseja transmitir e omitindo ou minimizando o valor do indesejável. Nele estão subjacentes valores, ideais e principalmente a cultura que se deseja consagrar, por isso os autores o enxergam como “um campo de luta” e afirmam que os estudos sobre esse tema precisam “historicizá – lo”, ou seja, mostrá – lo como algo construído pelo homem para cumprir uma função social, permeado de ideologia e pronto para servir de ferramenta na ação de um grupo sobre outro, um campo onde são encontradas ações de resistências culturais, onde os embates pela preservação e destruição das memórias dos diferentes grupos envolvidos no processo de escolarização acontecem.
Todas as vezes que a sociedade passa por uma mudança, a escola é chamada a dar uma resposta a partir da formação instrumental e política dos seus cidadãos, em todos os casos aqui apontados por FERREIRA, note – se que nunca se deixou o currículo escolar sem ser reformado, pois é a partir de sua elaboração que a cultura escolar será irradiada para todo o sistema, sendo assim, o currículo é o território onde cada membro interessado em preservar suas memórias, afim de não deixar que sua cultura seja excluída do imaginário popular, correndo o risco de se extinguir ou esvaziar, vai lutar por espaço dentro do âmbito educativo e por isso MOREIRA e SILVA o definem da seguinte maneira:
“O currículo é uma área contestada, é uma arena política.” (MOREIRA & SILVA - 2002,p. 21)
Os autores apontam para a necessidade de pesquisas de cunho histórico nessa área, afim de investigar as diversas maneiras de existência desse componente da educação escolar, desmistificando a naturalidade dos currículos disciplinares e centrados em uma única cultura,só assim, a educação escolar passaria a trabalhar para a emancipação dos grupos oprimidos.
Na visão de FREIRE a escola tem uma dimensão emancipatória mas para que as classes populares a utilizem a seu favor carece de uma tomada de consciência por parte dos educadores. FREIRE não discorda dos demais autores no que tange à subordinação da escola aos desejos políticos de grupos mantenedores do poder na sociedade, mas aponta como saída um trabalho politicamente consciente por parte de professores, coordenadores, diretores etc. , através do respeito para com a cultura das classes populares. Para tanto nos coloca questões a serem superadas e atitudes a serem implementadas afim de se concretizar uma educação emancipadora:
1- O mito da neutralidade da educação
2- O direito do aluno à palavra
3 – A postura democrática dos professores


O mito da neutralidade da educação


Para FREIRE, assim como para SILVA e MOREIRA, a Educação constitui – se um ato político e mesmo não se esgotando nele, não pode ser tomada como neutra por constituir – se historicamente, como já nos demonstrou FERREIRA. Nesse caso, estar dentro de um contexto histórico significa que a educação é um ato planejado e projetado “a favor de alguém e de alguma coisa” logo, “contra alguém e contra alguma coisa.” (Cf. FREIRE – 1997)
Para o autor, o discurso de neutralidade do ato de educar serve para transformar a educação em transmissão de conteúdos e esvaziar sua função política, negando aos oprimidos a tomada de consciência do lugar que ocupam na sociedade. (Cf. FREIRE – 1997)
Portanto essa é uma questão a ser superada.
Na visão de FREIRE é necessário que haja uma tomada de consciência por parte dos trabalhadores da educação no sentido de se posicionarem contra ou a favor das classes populares, classes estas nas quais eles próprios se encontram pela simples condição de trabalhador.
Para o autor é preciso perceber que o sistema escolar de educação está permeado de ideologia com a finalidade de adaptar e imobilizar os membros de uma sociedade nos lugares a eles destinados.
Ressalte – se que FREIRE não sugere uma inversão de papéis na detenção do poder e nem uma revolução do sistema político – econômico, antes argumenta em defesa de uma sociedade justa, com espaço igual para todos, não importando o sistema político - econômico implantado. Afirma ainda que o sistema educacional não fará isso por si, mas insiste que isso não justifica continuar fazendo educação de maneira unidimensional, ou seja, levando em conta apenas a capacitação instrumental dos sujeitos para o cumprimento de determinadas funções mercadológicas.


Direito do aluno à palavra


“Quem apenas fala e jamais ouve; quem “imobiliza” o conhecimento e o transfere a estudantes (...) não tem realmente nada a ver com a libertação e com a democracia.” ( FREIRE – 1997, pp. 26 e 27)
Se a escola tem realmente um caráter político cabe também a ela ensinar o educando a manejar ferramentas que possibilitem sua ação social de maneira competente. Ao tirar o direito do aluno à palavra o professor está não somente impondo sua palavra, mas também sua visão sobre determinado assunto, ou seja, está negando ao aluno seu direito de pensar e questionar, até porque está apresentando a ele um recorte pronto daquele conhecimento feito por ele próprio professor, permeado unicamente por sua cultura e o transmitindo como verdade absoluta, ou seja, ratificando a posição da educação escolar como agente de homogeneização cultural e consequentemente de controle social para a manutenção do poder de uns sobre os outros.
Dentro dessa linha teórico - metodológica o docente naturaliza a abordagem dos conteúdos apresentados como se essa não fosse constituída historicamente e tampouco permeada de uma carga ideológica que tem uma função social a cumprir. Ao agir dessa maneira impossibilitando o debate e mutilando o aluno de um exercício discursivo/ reflexivo ajuda a formar um cidadão obediente, incapacitado ou pouco capacitado de defender posições a partir de questionamentos que faça do mundo no qual vive.


Postura democrática do professor



A postura democrática do professor está intrinsecamente ligada ao tópico acima, pois a voz ao aluno só é dada pelo docente consciente de que a aprendizagem dos homens se dá no contato de uns com os outros mediatizada pelo mundo, independente do grau que ocupem na hierarquia social. Nesse sentido, o que FREIRE quer nos mostrar é que professores e alunos necessitam um do outro para superarem suas ingenuidades. (Cf. FREIRE – 1987)
Observando as colocações acima, partiremos do princípio que embora a escola seja uma instituição com finalidades de conformação social existe a possibilidade de subverter essa ordem e fazer dela um local de questionamento da sociedade, um local onde possa ser fomentada a tomada de consciência por parte dos sujeitos nela inseridos.
Para tanto, acreditamos que seja necessário abrir espaços, dentro dos estabelecimentos de ensino, para questões candentes da sociedade atual, além da importância da mudança da metodologia, como nos propõe FREIRE ou do conceito que se tem de currículo como nos apontam MOREIRA e SILVA, os conteúdos do ensino também precisam atender às necessidades dos estudantes.
Os meios de comunicação de massa suscitam debates acadêmicos, políticos além de estarem presentes no cotidiano da população seja em âmbito profissional ou doméstico. Cada uma dessas máquinas; computador, TV, rádio etc. não se limita apenas a ser uma máquina, mas também funciona como disseminadora de opiniões, valores, ou seja, é produto e produtora de cultura pelo simples motivo de por trás dela, haver a mão e o pensamento humanos. Sendo assim, há de se garantir um espaço dentro da escola para o estudo desses meios por eles mesmos e não como “recursos de animação” de um ou outro componente curricular.
A proposta de NAPOLITANO, do uso da TV como documento histórico, nos revela que dentro da História, esses meios já ganharam um espaço e uma idéia de como serem estudados, bem como o trabalho de SOUZA que buscou, junto a professores e alunos, um estudo da televisão digital por ela mesma, partindo de necessidades reais do grupo em questão, visando a autonomia de discentes e docentes na produção do conhecimento.
Além de justificar nosso ponto de vista em relação à importância da introdução de estudos que tenha a televisão como conteúdo quando se deseja uma educação escolar emancipadora, comentaremos essas duas propostas de como fazê – lo no capítulo seguinte.

CAPÍTULO 2 – A HISTÓRIA COMO MEIO DE ALFABETIZAÇÃO DE MÍDIA TELEVISIVA
Procuraremos neste capítulo justificar a importância da linguagem televisiva como conteúdo de uma educação escolar emancipatória através da proposta apresentada por Marcos Napolitano, onde a TV passa a ser um documento histórico. Porém, em contraponto ao próprio NAPOLITANO, utilizaremos fundamentos das teorias freireanas, apontadas por Karla Isabel de Souza, em sua tese de mestrado. Dizemos em contraponto porque NAPOLITANO nos propõe um estudo da TV a partir daquilo que já está feito e SOUZA apresenta um trabalho semelhante, porém com um diferencial significativo: o material é produzido por professores e alunos da escola.
Como já citamos anteriormente desejamos produzir um projeto de pesquisa que nos permita descobrir se é possível ao usuário de TV construir um conhecimento sobre a linguagem televisiva a partir da produção de documentos históricos em vídeo.
Primeiramente é necessário entender o porquê dessa nossa inquietação relacionada ao aprendizado da linguagem televisiva. Se faz necessário então justifica – la como tal.
Assim, iniciamos este capítulo fazendo uma exposição sobre o conceito de alfabetização para Paulo Freire, depois tentaremos demonstrar porque, através dos componentes do texto televisivo, podemos afirmar que cada um dos meios de comunicação de massa é portador de uma linguagem e só por este fato, seria necessário que fossem estudados em âmbito escolar.
Em uma segunda fase desse capítulo partiremos para a proposta de NAPOLITANO e SOUZA, justificando assim o uso da TV no ensino escolar de História, disciplina foco de nosso curso.

A- A televisão e sua linguagem


“A alfabetização é a criação ou a montagem da expressão escrita da expressão oral. Esta montagem não pode ser feita pelo educador para ou sobre o alfabetizando.” (FREIRE- 1997,p. 19)
Na visão de FREIRE ler não pode ser apenas um decodificar de palavras, para o autor a leitura do mundo precede a leitura da palavra e a leitura da palavra dá suporte para a continuidade da leitura do mundo, partindo do princípio de que linguagem e realidade estão intrinsecamente ligadas, o autor nos sugere que uma leitura crítica só pode ser feita ao entrelaçar texto e contexto. Essa ligação existe por meio da ação humana, a linguagem constitui a realidade e é por ela constituída, por esse motivo é necessário que ao alfabetizar, o docente considere esse aspecto ou far – se – à apenas um letramento, uma decodificação de textos, uma transfusão cultural.
Os meios de comunicação de massa são um produto da sociedade industrial/ capitalista e formam um sistema denominado por Theodor W. Adorno e Max Horkheimer como “Indústria Cultural”.
Segundo eles a Indústria Cultural é um sistema dentro do sistema capitalista e funciona como produto e produtor de uma sociedade burguesa (comercial/ industrial) sendo possível a sua existência apenas pela mentalidade artístico – cultural – tecnológica veiculada dentro dessa sociedade. A Indústria Cultural transforma a arte em produto; produto que vende produto e ideologia; que é fabricado e não criado e recriado e assim desenvolve um gosto estético mas também o degenera porque o homogeneíza e massifica.
Os estudos culturais já apontam hoje para uma outra direção, mostrando que essa pode ser a idéia da Indústria Cultural mas que ela acaba não se realizando completamente porque é necessário que se leve em conta não apenas o emitente da mensagem mas também a leitura a ser feita por seu receptor, assim, seria também a Indústria Cultural um território contestado, de embate cultural tanto quanto o currículo e o próprio sistema escolar, ou seja, embora ela tenha em sua origem um caráter de adaptação, homogeneização e massificação cultural tem também um caráter emancipador que pode e deve ser explorado pela escola e pelo educador, além de se constituir em uma linguagem, credenciando – se tanto instrumental como politicamente para adentrar os muros escolares e receber as mesmas deferências dadas a disciplinas como Língua Portuguesa e Artes, ambas donas de linguagens próprias.
Porém, como nos aponta FREIRE, o alfabetizar não pode ser feito afim de criar seres hábeis em decodificação e identificação de símbolos. É necessário levar em conta a dimensão simbólica que toda linguagem carrega e fazer este trabalho de maneira crítica, levando em conta as diversas leituras de mundo possíveis de ser encontradas nas escolas.
Nossa opção recaiu sobre a televisão, porque embora tenha aparecido com uma base econômica e artística definida pelo rádio, acabou atraindo mais público e investidores do que seu antecessor. Isso é explicado por utilizar não só o som mas a imagem como forma de transmissão de sua mensagem, assim criou também uma nova linguagem que como toda linguagem permeia de ideologia o conteúdo que veicula e se torna construtora de realidades.
Segundo a psicanálise, somos todos escravos de nossos desejos, material este que será utilizado pela televisão para atrair seu público. A TV tenta nos dar a idéia de liberdade dos desejos, criando uma expectativa que nos atrai a ficarmos parados assistindo. O objetivo é fazer com que o espectador realize simbolicamente aquilo que não conseguirá realizar na “vida real”. Dessa maneira a TV alterna momentos de estimulo ao desenvolvimento das fantasias de seu público, com momentos de sobriedade garantindo a “restituição da ordem”. Por esse prisma, a televisão acaba podendo funcionar como um mecanismo de controle social.
Mas para concretizar tal intento a TV precisa contar com a aceitação de seu espectador e para convencê – lo constituiu uma linguagem própria, que conta com alguns componentes apresentados a seguir.
“O espetáculo é a linguagem da televisão. E é segundo a lógica do espetáculo – a única lógica possível à TV – que tudo nela é transmitido.” (BARBERO in MARCONDES FILHO – 1998, p. 41)
Segundo a lógica do espetáculo, as sensações são trabalhadas de forma a não serem experienciadas, mas vividas abstratamente, assim os desejos são satisfeitos de forma superficial e o controle social se mantém mais fácil.
Outro componente dessa linguagem é a imagem em formato de videoclip, que joga no vídeo uma quantidade grande de imagens por minuto e substitui idéias verbalmente formalizadas por idéias imagéticas.
Os signos e clichês são os últimos elementos dessa linguagem dos quais trataremos.
Os signos são, segundo a definição de MARCONDES FILHO, todas as situações que dão ao telespectador a idéia de uma realidade domesticada.
Na enciclopédia Nosso Século, uma psicóloga, ao comentar sobre os produtos televisivos da Rede Globo de Produções, falou de seu caráter asséptico ou seja, a preocupação que seus programas têm em transformar a realidade em realidade produzida e assim transmitir a opinião da emissora de maneira a fazer o espectador ter a impressão de que está, através da televisão, vivenciando a situação por ela apresentada tal e qual essa situação é, sem questionar – se das diversas nuances nas quais estão envolvidos os seres humanos mesmo quando expostos a realidades semelhantes, consequentemente podendo tomar para si o pensamento da empresa produtora do programa. Essa é a função do uso do signo.
Já o clichê visa fazer o espectador identificar – se com os símbolos tradicionais que povoam nosso imaginário. Ao contrário do signo que pretende aproximar o telespectador pela criação de uma realidade, o clichê pretende aproximá – lo por meio de uma identificação emocional.
“Isso é clichê: símbolos tradicionais de amor, de família feliz, de prosperidade. As pessoas que assistem a essas cenas identificam – se imediatamente com elas.” (MARCONDES FILHO – 1998, p. 48)
No clichê o trabalho da TV volta – se especialmente para o emocional do indivíduo que procura sempre uma saída racional nas lembranças de sua vida, porém o clichê não permite a vivência plena dessas emoções. Ao espectador essa vivência está vetada para que ele não “se perca nos sonhos” e assim a sociedade corra o risco de ver sua “ordem” subvertida.
Em nossa visão é no uso dessa alternância entre signo e clichê, onde um apela ao racional enquanto outro apela ao emocional dos indivíduos, que se cria um jogo de tensão e relaxamento, proporcionando ao telespectador a possibilidade de vivenciar situações de fuga da realidade dentro de sua própria casa, capaz de prender o sujeito à frente da TV e “anestesiá – lo” para a venda que se pretende fazer não apenas dos produtos anunciados, mas principalmente das mensagens implícitas que têm cunho de formação ideológica.
A televisão cria uma idéia falsa de liberdade que pode agir sobre os indivíduos povoando seu imaginário de idéias que nem sempre atendem às suas necessidades políticas/ sociais.
Por constituírem uma linguagem,os meios de comunicação de massa precisam ganhar espaço dentro da escola.


B – A Televisão como documento histórico


O professor e historiador Marcos Napolitano apresenta uma proposta bastante consistene do uso da televisão como documento histórico dentro da sala de aula e adverte que isso não pode e não deve ser visto pelo docente como uma modernização do ensino de história e nem mesmo como uma panacéia que vá resolver os problemas didático-pedagógicos relativos a este componente curricular.
O autor aponta para o cuidado que o professor deve ter na escolha do material a ser analisado, além de centrar – se em um único gênero televisivo e fazer um recorte temporal do material a ser utilizado.
NAPOLITANO atribui grande importância ao conhecimento do professor de história a respeito das teorias da comunicação de massa, mas não exige que seja o conhecimento de um especialista.
O autor aponta como um problema teórico o “caráter volátil” do conteúdo televisivo e justifica sua posição alegando que existe dificuldade de formação de memória histórica devido a isso. Como problema prático, o autor, identifica a pouca quantidade de programas de televisão preservados. (CF. NAPOLITANO in BITTENCOURT – 2002)
Vemos que o problema prático pode ser superado se entendermos que no ensino de história podemos partir do tempo presente para discutir questões do passado e vice versa, a não ser que se tenha como objetivo estudar as permanências e transformações da linguagem televisiva. Caso não seja esse o mote do estudo proposto poderemos utilizar programas atuais para analisar questões de tempos idos, obviamente, tendo como apoio outros tipos de documentações.
A TV trabalha com signos e clichês para povoar o imaginário de seus telespectadores e assim formar ou, nos dizeres de Perseu Abramo, manipular a memória daqueles que lhes dispensam audiência. Exemplo disso está no texto de Daniela Aline Hinerasky, “O Pampa Virou Cidade? - Um estudo sobre a inserção regional na TV aberta gaúcha”, onde a autora relata como, a partir da inserção de programas de conteúdos regionalistas na TV aberta afiliada à Rede Globo de Televisão no Rio Grande do Sul, houve uma retomada da então desprestigiada cultura dos Pampas naquela região. Sendo assim, podemos afirmar que o problema teórico apontado por NAPOLITANO pode ser superado pelo docente, à medida que realize uma pesquisa aprofundada sobre as teorias de comunicação e consiga entender os artifícios utilizados por este meio para atingir suas finalidades.
Além disso, Napolitano trás a televisão como pretexto para o ensino de História. Em nosso caso, o ensino da História é um canal para discutir a televisão por ela mesma, para isso não é obrigatório trabalhar com uma linha cronológica da história da televisão no Brasil, suas rupturas e permanências, essa é uma das maneiras de trabalhar. A que propomos tem como objetivo discutir as questões que os meios de comunicação suscitam hoje como o capitalismo, o consumismo, a inculcação de idéias, a manipulação da informação a serviço de grupos sociais distintos, a posição do telespectador em relação aos produtores de programas, a espetacularização da vida, como são apresentadas as questões de gênero, sexualidade, meio ambiente, saúde etc. Isso dentro de uma metodologia dialógica e ativa, onde professor e aluno trabalhem em conjunto, a partir de discussões, produção de material de vídeo e interação da comunidade escolar com a comunidade que está no entorno da escola.
Dentre os vários teóricos dos quais Napolitano se utiliza para relembrar as diversas maneiras pelas quais a TV já foi analisada, um deles, BERGER, chama a atenção por um dos pontos que focaliza em seu texto.
“A análise da retórica televisual (plano, sequência, emissões, programas, programação geral)”.Essa retórica, a qual Berger se refere, é nada mais nada menos do que a própria linguagem televisa, de grande relevância para que se possa entender a TV não como uma ditadora de verdades mas como uma criadora de realidades que serão aceitas ou não por seus espectadores.
NAPOLITANO demonstra que os dado/fato/ evento históricos, com a TV quase chegam a se fundir em um só. (CF. NAPOLITANO in BITTENCOURT - 2002).

“Geralmente é esta a dinâmica que está por trás da cobertura das grandes tragédias coletivas. Da informação imediata às explicações causais e às dramatizações, operadas e incrementadas pela própria linguagem do meio, é que se realiza a memória histórica e a ideologia dominante. Mas também concorrem nesse processo as demandas e projetos de grupos sociais diversos e heterogêneos, os quais os programas televisivos de grande audiência não podem negligenciar, sob pena de perder “consumidores”.”
(NAPOLITANO in BITTENCOURT, p. 160 - 2002)

Segundo Perseu Abramo, muito mais que consumidores, a chamada grande mídia perderia seu poder de influência social – ideológico.
No ensaio “Padrões de Manipulação na Grande Imprensa”, ABRAMO faz uma análise sobre as diversas formas de manipulação das notícias utilizadas pelos meios de comunicação brasileiros, suas finalidades e objetivos, concluindo que essas empresas agem como um partido político, ou seja, motivadas muito mais por determinantes políticos do que econômicos.
Para Abramo a intenção dos empresários da comunicação no Brasil é fazer a manutenção de sua posição de influência política junto às elites brasileiras.
Defendendo essa tese, o autor relata e descreve as diversas maneiras de manipulação das notícias utilizadas pelos meios de comunicação de massa. Abramo incide suas análises principalmente sobre os meios escritos, mas não deixa de fora a televisão.
O autor inicia o texto denunciando a criação de uma realidade paralela pela chamada grande imprensa a partir da deformação da informação e descreve os padrões de manipulação das notícias por ele identificados ao longo de seus estudos e sua carreira jornalística.

“Encarar o desafio de trabalhar criticamente com o documento televisual me parece mais produtivo do que o costumeiro exercício de retórica pseudocrítica, no qual alunos e professores falam mal da televisão, do “sistema”, da “alienação” durante as aulas e, ao chegar em seus lares, na solidão e no silêncio, se entregam à luz mágica e abismal.” (NAPOLITANO in BITTENCOURT, p.161 - 2002)

Para trabalhar de maneira crítica, utilizando a TV como documento histórico propomos um trabalho de cunho ativo, onde o documento seja produzido conjuntamente por alunos, professores e a comunidade do entorno escolar, apoiados por outras documentações e frutos das discussões a respeito de suas necessidades sociais.
Em 2005, Karla Isabel de Souza apresentou à Unicamp a tese de mestrado intitulada “ Novas Tecnologias e Educação: preparando a escola para a chegada da TV Digital Interativa”, nela a autora apresenta um estudo de caso, aplicado com apoio do LANTEC (Laboratório de Novas Tecnologias Aplicadas à Educação) em escolas da rede pública. Fundamentada nas teorias de Paulo Freire e Francisco Gutierrez, SOUZA desenvolveu, junto aos corpos docente e discente um programa de produção de material didático. Esse projeto passou por diversas fases, dentre elas a capacitação de alunos e professores para a utilização dos meios oferecidos objetivando dar condições aos envolvidos no programa de produzir e criticar suas produções tanto no que diz respeito aos resultados técnicos como simbólicos. Ao terminar a tese, o programa teve continuidade devido à vontade da própria comunidade escolar que contou com a continuidade de apoio do LANTEC.
Apontamos como de suma importância nos resultados obtidos por esse trabalho a criação de um verdadeiro ambiente de ensino – aprendizagem, onde professores e alunos tiveram espaço para debater idéias que convergiam para uma mesmo fim, e que, em nossa avaliação, possibilitou à comunidade escolar da EMEF “Professora Dulce Bento do Nascimento” assumir a responsabilidade pela construção de seu conhecimento.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Tentamos no decorrer deste texto pensar alternativas para utilizar a chamada dimensão emancipatória da educação escolar e percebemos que no trabalho apresentado em 2000 existia uma série de falhas mas uma série de pontos que poderiam ser retomados sob um outro enfoque.
Naquele texto não apresentamos uma proposta propriamente dita, apenas apontamos para o estudo dos meios de comunicação de massa como uma maneira de libertar a sociedade das “garras do capitalismo”, coisa que hoje acreditamos não ser possível apenas com a inclusão de uma disciplina e nem mesmo com uma mudança no sistema escolar. Também não cremos em denúncias vazias. Fazer um trabalho acadêmico denunciando algo sem apontar possíveis caminhos seria apenas mais uma demonstração de egocentrismo desnecessária ao mundo acadêmico.
Descartamos então de nosso trabalho anterior a proposta e alguns dos argumentos mas retomamos o tema e os teóricos mais importantes, a ele somamos os textos de FERREIRA e MOREIRA & SILVA, pois percebemos que não era possível tratar de educação sem pensar na função que a escola cumpriu ao longo de todos esses anos bem como deixar de lado os estudos curriculares de MOREIRA & SILVA, uma vez que nossa proposta visa uma mudança curricular, ainda que mínima.
Ainda não nos sentimos seguros para concluir algo sobre o que expusemos, uma vez que nossa pesquisa foi meramente bibliográfica e não houve qualquer experimentação daquilo que nos propomos a fazer. Pretendemos dar prosseguimento a nossas investigações a partir de algumas questões já levantadas a respeito da própria possibilidade de existência dessa dimensão emancipatória da educação, se o trabalho com os meios de comunicação de massa seria uma maneira de trabalhá – la e se ensino escolar da História através dos documentos pode ser o canal mais preciso para tal finalidade.
Diferentemente do momento em que nos encontrávamos quando da apresentação deste mesmo trabalho em Historiografia Contemporânea, nosso tema de pesquisa agora se encontra definido, mas ainda apresenta muitas lacunas no que diz respeito a metodologia da pesquisa e do ensino em História, principalmente por não ser a nossa formação acadêmica.
Ainda questionamos a própria dimensão emancipatória da educação escolar por ser esse um sistema que está sob a “guarda” do poder Estatal, a quem interessa fazer a manutenção social.
Apresentamos até então uma proposta de trabalho que prevê uma alteração metodológica, mesmo assim, acreditamos necessitar que sua experimentação seja realizada como projeto piloto devido a tudo o que já foi dito a respeito do sistema escolar neste texto.
A partir de agora pretendemos continuar nossa pesquisa aprofundando nossos conhecimentos a respeito do trabalho com documentos em sala de aula e de propostas didáticas que já são desenvolvidas nesse sentido.

BIBLIOGRAFIA


FERREIRA, Antônio Gomes. A Difusão da Escola e a Afirmação da Sociedade Burguesa. Revista Brasileira de História da Educação, N. 09, jan./jun., p.177 – 198, 2005.
FREIRE, Paulo. A Importância do Ato de Ler: em três artigos que se complementam, 33 ª edição, São Paulo: Cortez, 1997.
MOREIRA, Antônio Flávio; SILVA, Tomaz Tadeu da. Currículo, Cultura e Sociedade, 7ª edição, São Paulo: Cortez, 2002.
NAPOLITANO, Marcos. A Televisão como Documento in BITTENCOURT, Circe. O Saber Histórico na Sala de Aula, 7ª edição, São Paulo: Contexto, 2002.
PERES, Yara Esteves. Escola e Televisão: alfabetização de mídia como alternativa de educação emancipatória, 2000. Monografia (Trabalho de Conclusão de Curso – Pedagogia – não publicado) Universidade Católica de Santos. Santos.
SOUZA, Karla Isabel de. Novas Tecnologias e Educação: preparando a escola para a chegada da TV Digital Interativa,2005, Dissertação (Mestrado em Educação) UNICAMP.Campinas.

BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR


ABRAMO, Perseu. Padrões de Manipulação na Grande Imprensa. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2003.
ADORNO, Theodor W.; HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar. 1985.
HINERASKY, Daniela Aline. O Pampa Virou Cidade? Um estudo sobre a inserção regional na TV aberta gaúcha. Revista Estudos Históricos, vol. 01, n. 31, RJ: FGV, 2003.
MARCONDES FILHO,Ciro. Televisão, a Vida pelo Vídeo,13ª edição, São Paulo: Moderna, 1998.



NOTA

1 - Currículo Oculto - contém os objetivos e experiências não explícitos, e encontram – se em grande parte nos atos do cotidiano. O currículo oculto é um meio por onde veiculam idéias e posturas tão arraigadas ao cotidiano que são vistas como naturais e dessa maneira são apreendidas sem que seja necessário explicitá – las como conteúdos, basta sua simples execução no dia – a – dia para que sejam percebidas e reproduzidas por terceiros. (Cf. MOREIRA e SILVA - 2002)

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