quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Reflexões a beira mar


Moro em Santos e há dias me propus a caminhar pela orla, para tanto, lá pelas 6h30 saio do aconchego de meu lar e me ponho a caminho da praia. O sol ainda está baixo, às vezes ainda nem saiu direito, as ruas quase vazias, apenas nos pontos de ônibus avistam – se algumas pessoas a espera do transporte para mais um dia de labuta. Poucos carros trafegam e o silêncio só não é absoluto porque os pássaros já cantam anunciando a chegada de mais um dia. A cena chega a ser bucólica se pensarmos que estamos na cidade que comporta o maior porto da América Latina e meu relato poderia ser poético se não fosse o que vejo e descrevo a seguir.
O trajeto de minha residência até a praia é curto, pouco mais ou menos de dez quadras, mas o suficiente para me chamar a atenção para a quantidade de lixo encontrada nas calçadas.
Da rua onde moro até a calçada da Avenida Presidente Wilson pode – se ver, jogada toda sorte de coisas: caixas de papelão sujas de restos de alimentos, potes de sorvete, comida estragada, pedaços de carne apodrecidos, sacos plásticos, latas de refrigerante e cerveja, copos descartáveis etc.; tudo pelo chão, em uma composição fétida que reflete nossa despreocupação com o outro. Completando o quadro, junto aos entulhos estão as pombas, como ratos de asas, elas se aglomeram em pequenos bandos ao redor da sujeira para conseguir seu alimento diário e farto deixado pelas casas de comércio local ou pelos próprios transeuntes. Elas são muitas e formam sobre os entulhos uma massa que se movimenta como se aquele fosse seu habitat natural. Além da paisagem não ser agradável o cheiro é nauseante. A cena repugna tanto pela feiúra quanto pelo odor.
Tudo isso não é pouco, mas ainda existe a questão da saúde. Mesmo após a retirada dos detritos, as ruas continuam meladas do chorume derramado pela lixarada que ficou exposta ao tempo e às ações de animais e/ ou seres humanos sem que alguém se ocupe com a limpeza do local, o cheiro impregna a cidade, os munícipes ficam expostos a qualquer doença derivada dessa imundície e as pombas ainda sobrevoam nossas cabeças ou tropeçam em nossos pés no aguardo do próximo banquete.
Penso ser este um problema que passa não apenas pelas áreas de saúde e meio ambiente, mas principalmente pela da educação.
Acondicionar os restos que eu ou meu comércio produziu durante o dia de maneira correta, promover a recolha desse material de acordo com as características de funcionamento dos bairros da cidade, esclarecer a população sobre os prejuízos materiais e humanos causados pela falta da manutenção da higiene e convencer os moradores da necessidade de sua cooperação para o sucesso dessa empreitada não é apenas uma questão ambiental, é também moral se partirmos do princípio que essas ações visam o bem da coletividade. Foi a preocupação com o indivíduo e com a urbe, que fez o homem buscar dar aos seus dejetos um tratamento adequado. Essa maneira de levar a vida visando o bem estar de todos parece estar se perdendo, tanto por parte dos cidadãos como dos governantes, o que sugere uma mudança de hábitos, indica uma transformação no pensamento de nossos contemporâneos e aponta para ações no âmbito educativo não se restringindo este ao escolar, isso porque a escola não é e não deve ser vista como o único meio educativo de uma sociedade, ela é apenas um locus privilegiado de produção e difusão de uma parte do conhecimento, outros meios existem e estão nas áreas de saúde, assistência social, comunicação, cultura, esporte, instituições religiosas e políticas etc.
O que mobiliza o Homem a agir é a vontade direcionada pelo conhecimento, baseado na moral e na ética alinhadas à vivência cultural de cada grupo social, isso suscita uma formação muito mais ampla do que a abarcada pela a escola. Essa formação depende da coerência das ações integradas entre os órgãos responsáveis pela fomentação da educação, no concernente ao enfoque dado às idéias que disseminam e à criação de meios de acesso da população a essa rede. Formar um cidadão que vise o coletivo e deixe de lado o que chamo de moral do individualismo, está no campo de atuação das administrações pública e privada em suas diversas esferas, através de uma rede educativa capaz de integrar sem preconceitos, com equidade de responsabilidade e comprometimento, todas as áreas que podem contribuir para uma mudança cultural gerando nos homens públicos e anônimos atitudes de respeito e responsabilidade pelo coletivo. Alterar uma situação como essa não passa apenas pela recolha do lixo ou pelo seu acondicionamento, mas por uma mudança de pensamento que só pode ser feita acredito sim, por iniciativa do poder público atingindo a sociedade como um todo, a partir de uma nova orientação da atuação dos homens dos poderes executivo, legislativo e judiciário em todas as instâncias.

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