
Marina Alves Amorim é doutora em História pela FAFICH – UFMG e trabalhou durante sua graduação, mestrado e doutorado com a história da educação feminina em ambientes não escolares.
No texto “ Combates pela História: a “guerra dos sexos” na historiografia” a autora investiga as razões da exclusão feminina na História formulando questões e indicando respostas a partir dos dados levantados no trabalho com a produção científica realizada por mulheres, no programa de pós graduação da UFMG, na área de Ciências Humanas. A pesquisa, baseada nas teorias de Michelle Perrot e Pierre Bourdieu, relaciona quantitativamente os trabalhos produzidos por mulheres e o desenvolvimento de temáticas femininas.
No início do artigo AMORIM afirma que debaterá duas afirmações recorrentes nas pesquisas sobre o assunto:
- a idéia de hierarquia científica, que destaca alguns temas e minoriza o valor de outros,
- a associação da presença feminina na produção historiográfica e o surgimento de uma historiografia da mulher.
A partir daí, a autora expõe os motivos que, segundo Perrot, causaram a exclusão feminina da narrativa histórica. Aponta as fontes de pesquisa e o teor dos relatos como causa, e ratifica citando os homens como principais responsáveis pelos registros históricos, razão pela qual a política e a economia estariam sempre no centro dos interesses assim a mulher, pouco ativa nessas áreas devido a questões contextuais, ficaria excluída dessas fontes e consequentemente dessas descrições. A solução para reescrever esses relatos seria o uso da História Oral e dos arquivos privados. Neles a mulher deixou marcas indeléveis de sua trajetória como mãe, educadora, trabalhadora etc. Perrot afirma que a separação entre os espaços público e privado como segmentos exclusivamente masculino e feminino, respectivamente, é falsa, mas reconhece uma diferença na maneira como esses espaços são ocupados por homens e mulheres.
Ainda durante a exposição teórica, a autora de “Combates pela História...” traz à luz uma aparição sexista da mulher na escrita histórica. Através do texto de Perrot são expostas as idéias estereotipadas de Michellet que contrapõem homens e mulheres a partir de uma caracterização onde os primeiros aparecem como representantes da cultura e as segundas como representantes da natureza. Essa maneira de escrever história forja a imagem de mulher – mãe – esposa como algo positivo e de algo negativo para qualquer coisa diferente desse modelo.
AMORIM vai nos mostrar o movimento feminista do final do século XIX como responsável pelo questionamento do papel atribuído à mulher na sociedade em todos os âmbitos, inclusive no acadêmico. Segue – se uma cronologia desse movimento e de seus objetivos, inicialmente voltados para a visibilidade feminina na Ciência. Nessa época o tom do discurso das feministas era de denúncia, questionamento, descrição e investigação das condições da vida da mulher em diferentes tempos e espaços. A conseqüência disso foi a colocação da mulher no centro das atenções e a necessidade da produção de uma teorização do feminino, etapa seguinte dos estudos iniciados pelo movimento. Surge o conceito de gênero e o olhar daquilo que é “do homem” ou “da mulher” passa a ser tratado como oriundo da construção social e não mais da determinação biológica do sexo. A partir da década de 60 as ativistas e acadêmicas feministas foram burilando as teorias, discussões e produções sobre o tema até conseguirem um reconhecimento definitivo na década de 80, além disso a autora acrescenta uma mudança nos rumos da historiografia. Com o término da chamada segunda geração dos Annales os historiadores voltam seus estudos para temas mais intimistas e menos abrangentes, isso fortalece o desenvolvimento dos trabalhos referentes à mulher que já vinham sendo gestados na academia.
Quando se questiona sobre qual a imagem da mulher construída pelo movimento feminista, a autora nos mostra que desde a produção de Perrot, onde a mulher é mostrada como detentora de poderes, até os trabalhos mais atuais, que questionam a construção dessa imagem pelo perigo que representa aos ideais feministas, ainda não se chegou a uma resposta satisfatória de qual seria o papel da mulher na sociedade contemporânea e que ainda existem muitos espaços a serem conquistados.
Isso se torna perceptível a partir dos dados levantados pela pesquisa de AMORIM que teve como objeto de estudo a produção científica na área das Ciências Humanas, na FAFICH – UFMG. Em algumas áreas como as Ciências Sociais e a Filosofia a presença masculina é superior a presença feminina, já nos programas restantes as mulheres superam os homens na produção científica, principalmente nas áreas de Psicologia Social e Educação, onde são maioria esmagadora. Porém, segundo os dados expostos pela autora isso não significa um grande expoente de trabalhos que versem sobre as temáticas femininas. Nas pesquisas de AMORIM nota – se que essas temáticas ainda são tratadas quase que exclusivamente por mulheres tanto na realização como na orientação e que a simples presença de pesquisadoras na academia não garante a exploração ampla desses temas.
AMORIM embasa o surgimento desses números na teoria da Hierarquia Científica, de Pierre Bourdieu e acrescenta a ela o peso da subjetividade do autor nessa escolha.
Para BOURDIEU, existe uma hierarquia social nos objetos de pesquisa segundo a qual trabalhos científicos bem desenvolvidos sobre temas “marginais” têm menor chance de serem devidamente reconhecidos do que aqueles sem tanto esmero, mas com temas socialmente reconhecidos. Essa hierarquização seria a responsável exclusiva pela escolha de determinados temas, sem que o pesquisador pudesse controlá – la, submetendo – se a ela de maneira incondicional.
AMORIM concorda, mas acrescenta que a subjetividade do pesquisador também conta na hora da escolha de um tema e utiliza como argumento os próprios dados de sua pesquisa onde as temáticas femininas, embora marginais na hierarquia científica, são escolhidas quase que exclusivamente por mulheres, o que denota a presença de uma idéia de pertencimento a determinado grupo social e o reconhecimento de sua importância pelo o indivíduo pesquisador maior do que o valor dado a esse tema por terceiros.
IMPRESSÕES
O texto de AMORIM deixa claro que o papel da mulher na sociedade, ainda hoje no século XXI, após mais de 100 anos de movimento feminista, precisa ser estudado, questionado e principalmente conquistado. Segundo sua pesquisa, o território acadêmico, assim como outros, ainda está muito aquém do que deveria em relação ao reconhecimento da mulher como sujeito histórico. Para que isso aconteça não basta que estejamos presentes nos bancos das faculdades ou produzindo teses, ou ainda que nos contentemos em ocupar esses espaços fisicamente, é necessário que haja um desejo das mulheres de garantir sua presença no imaginário social como um ser pleno de direitos e deveres, colocando – se como centro de discussões contínuas e profícuas para a definição/ redefinição de seu lugar social. O meio acadêmico é um lugar propício a essas discussões porém é ainda preciso que esses debates se estendam para além dos muros da academia e envolvam a sociedade como um todo. Ou seja, ainda há um longo caminho a ser percorrido.
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